Título: Superávit externo cai para US$ 614 mi
Autor: Fabio Graner, Adriana Fernandes
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/07/2006, Economia, p. B5
Surpreendendo o mercado financeiro e o próprio Banco Central, a conta de transações correntes do balanço de pagamentos - que registra todas as operações de comércio e serviços do Brasil com o exterior - apresentou saldo positivo de apenas US$ 614 milhões em junho. O valor foi quase três vezes inferior ao US$ 1,7 bilhão previsto pelo BC e é quase metade do resultado obtido em junho de 2005 - US$ 1,285 bilhão.
De janeiro a junho, o superávit em conta corrente atingiu US$ 3,1 bilhões e no acumulado em 12 meses terminados em junho, US$ 12,02 bilhões - o equivalente a 1,41% do Produto Interno Bruto (PIB).
Segundo o chefe-adjunto do Departamento Econômico (Depec) do BC, Luiz Malan, o resultado abaixo do esperado não preocupa e ocorreu por conta do volume forte de remessas de lucros e dividendos de empresas para o exterior no fim do mês. Elas somaram US$ 1,6 bilhão, valor 55,6% maior que em junho de 2005. Malan não associou a movimentação à turbulência no mercado financeiro, que teve seu auge em junho. "Alguns fatores influenciam essa conta: taxa de câmbio, lucratividade das empresas e o estoque de investimentos."
Mas, para o economista da MB Associados, Sérgio Vale, o comportamento das remessas tem tudo a ver com a turbulência. "Acredito que as empresas, diante da alta do dólar, começaram a projetar uma taxa de câmbio mais desvalorizada no futuro e anteciparam remessas em junho. Passada a turbulência, a tendência é que essa conta volte para o ritmo normal."
Guilherme Maia, economista da Tendências Consultoria, não espera maior crescimento das remessas a partir de agora, já que não haveria mais o estímulo da taxa de câmbio. "Há pouco espaço para apreciação do câmbio, por conta das atuações do Banco Central."
O BC também espera uma desaceleração na saída de dólares por meio de remessas de lucros e dividendos. A projeção para julho é de saída líquida de US$ 900 milhões. Com isso, Malan projetou para o mês um superávit de US$ 2,4 bilhões para a conta corrente.
Outro fator que influencia essa expectativa otimista é o comportamento da balança comercial em julho, até agora com desempenho mais forte devido ao fim da greve da Receita. A MB Associados projetou para este mês um saldo comercial positivo de US$ 5 bilhões a US$ 6 bilhões, bem acima dos US$ 4,1 bilhões registrados em junho.
INVESTIMENTOS
Se a conta corrente foi surpresa negativa, o comportamento da conta capital e financeira - que registra Investimentos Estrangeiros Diretos (IED) - agradou ao economista da Tendências. "As boas notícias vieram na conta capital, particularmente em IED e em taxa de rolagem (renovação) dos empréstimos externos", disse Maia. Em junho, o fluxo de IED ficou em US$ 1,061 bilhão. O mercado esperava US$ 600 milhões. Em igual mês do ano passado, os ingressos foram de US$ 1,3 bilhão. Em julho, o fluxo continua forte, atingindo, até ontem, US$ 1,2 bilhão. O BC espera US$ 1,5 bilhão até o fim do mês.
Para o chefe-adjunto do Depec, o resultado foi influenciado por empresas que transformaram dívidas a receber em investimentos no País e por aplicações de um fundo de pensão canadense no setor imobiliário. Em julho, Malan espera quadro mais favorável, por conta da redução na volatilidade do mercado financeiro - "devido à menor incerteza sobre os rumos da política monetária americana" -, também verificada na taxa de rolagem e no fluxo de dólares. "Os investimentos estão crescendo na indústria e também nas operações de pequeno porte."
No ano, os ingressos de IED somam US$ 7,386 bilhões, ante US$ 8,5 bilhões no primeiro semestre de 2005. Nos 12 meses encerrados em junho, o saldo de IED ficou em US$ 13,9 bilhões, o correspondente a 1,64% do PIB. Refletindo a turbulência nos mercados, a taxa de rolagem dos empréstimos externos de médio e longo prazos ficou em 32%, ante 100% em junho de 2005.