Título: Furlan quer meta de crescimento como marca para 2º mandato
Autor: Adriana Fernandes
Fonte: O Estado de São Paulo, 13/09/2006, Nacional, p. A4

O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan, abriu ontem, em público, uma discussão sobre o foco da política econômica em um eventual segundo mandato do governo Lula. Furlan defendeu a fixação de metas de crescimento de 5% a 6% nos próximos quatro anos.

A proposta de Furlan parte da idéia de que o primeiro mandato de Lula alcançou o objetivo de manter a inflação sob controle e em um patamar abaixo da meta definida pelo Banco Central, que é de 4,5%. A pesquisa semanal do BC, entre instituições financeiras, indica que a inflação está na casa dos 3,32% este ano e deve se situar em 4,40% em 2007.

'Eu colocaria o desafio de termos uma meta de crescimento. Essa meta não estaria conflitando com a meta de inflação, porque a meta de inflação já foi alcançada com sucesso', disse Furlan, momentos antes de presidir o Encontro Empresarial Índia, Brasil e África do Sul, na Confederação Nacional da Indústria (CNI). A definição das metas de crescimento daria aos investimentos públicos e privados uma perspectiva de longo prazo. Circunstancialmente, pelo menos, Furlan se aproxima da ala do PT que defende políticas desenvolvimentistas em detrimento da manutenção do 'palocismo', isto é, o atual arrocho fiscal e a timidez na queda dos juros (leia abaixo).

'Os empresários se mobilizariam com essa sinalização do governo', argumentou o ministro do Desenvolvimento. 'O esforço para se dar ênfase na redução maior da inflação talvez pudesse ser direcionado para uma agenda de crescimento.'

Furlan não detalhou a forma como o governo poderia executar um programa de metas de crescimento. Apenas estabeleceu uma comparação com o que é praticado, atualmente, em relação às metas de inflação. 'É a mesma coisa', afirmou. 'Por que não? A Argentina tem meta fixa de crescimento.'

CUSTO

Atualmente, o BC define a taxa de juros, a Selic, com o objetivo de conter a inflação na meta definida. Nos últimos anos, os juros foram elevados ou reduzidos de acordo com o movimento de alta ou de baixa dos preços na economia. O objetivo foi alcançado e a inflação está, de fato, abaixo da meta, mas o custo dessa política foi um crescimento econômico muito baixo. No segundo trimestre, a produção total de bens no País cresceu apenas 0,5%. No semestre, a economia está em um ritmo de crescimento de 2,2%, bem abaixo do patamar de 4% a 5% idealizado pelo governo.

A proposta de Furlan, de fixar meta para o crescimento, teve repercussão imediata. O ex-diretor do Banco Central e atual economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas, alertou para o fato de que a meta de inflação não pode acabar, mas admitiu mudanças no sistema posto em prática pelo BC. 'O governo não pode ter duas metas, uma de crescimento e outra de inflação', disse Freitas. Ele defendeu, no entanto, a flexibilização das bandas de inflação (a meta pode variar para um índice mais alto ou mais baixo), para que o crescimento da economia não seja prejudicado. Nesse cenário de maior flexibilidade, o BC poderia buscar um nível mais perto do teto de variação da meta. 'Hoje, a inflação está mais perto do patamar inferior', observou. Por causa das altas taxas de juros, o ex-diretor do BC reconhece a dificuldade de o governo promover uma mudança de patamar para o crescimento da economia em 2007.

O economista-chefe da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Flávio Castelo Branco, disse que uma meta de crescimento só seria factível se fosse um objetivo global da política econômica e incluísse como estratégia principal a redução da carga tributária.