Título: Pacote não reduz déficit de moradias de 7,8 milhões
Autor: Renée Pereira
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/09/2006, Economia, p. B5
O pacote habitacional anunciado pelo governo deve impulsionar a compra de imóveis pela classe média, mas terá pouco efeito no déficit de moradias, calculado em 7,8 milhões de unidades. 'Apesar de serem muito boas para a construção civil, as medidas não solucionarão o problema da baixa renda', afirma o diretor-superintendente do Instituto de Orientação às Cooperativas Habitacionais de São Paulo (Inocoop), Richard Moreton Treacher.
Segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), para reduzir a carência de moradias o País precisaria investir em habitação social cerca de R$ 40 bilhões entre 2007 e 2010, sendo R$ 22,8 bilhões na redução do déficit e R$ 17,9 bilhões em novas moradias. Isso porque se estima que a demanda anual, advinda do crescimento vegetativo, ficará entre 1,5 milhão e 1,6 milhão de novas moradias.
De acordo com o trabalho, o não atendimento dessa demanda pela oferta de novas habitações engrossará as estatísticas de déficit habitacional, seja na componente de inadequação ou coabitação. Nesse sentido, o diretor do Secovi-SP, Fábio Rossi, alerta que em São Paulo, por exemplo, não há nenhum empreendimento voltado para públicos de mais baixa renda. 'Não existe mais apartamento popular em São Paulo. É difícil encontrar algum apartamento novo por menos de R$ 80 mil. É que nem carro. Dá para dizer que um carro de R$ 25 mil é popular? Quem supre essa oferta são os imóveis usados. Esse é o segmento mais carente.'
No primeiro semestre, foram lançadas na cidade 9.545 unidades. Desse total, 2.911 tinham quatro dormitórios, com valor médio de R$ 781 mil por unidade. Os lançamentos de duas unidades e uma unidade tinham preços entre R$ 120 mil e R$ 140 mil, segundo dados do Secovi-SP. Nessa faixa, a tendência é aumentar a oferta de imóveis, garante Wilson Amaral, da Construtora Gafisa.
Ele explica que, pelas dificuldades de financiamento para a classe média, as empresas se voltaram para imóveis de alto padrão, cujos compradores não dependem tanto de empréstimos. 'À medida que os bancos ampliarem os prazos e melhorarem as taxas, as companhias vão preencher essa lacuna, pois a demanda está reprimida.' As construções de dois dormitórios, na casa de R$ 120 mil, já entraram com mais força na carteira das construtoras neste ano. Foram lançados no primeiro semestre 3.706 unidades em São Paulo.
A coordenadora do estudo da FGV, Ana Maria Castelo, é mais otimista. Para ela, o pacote do governo traz alguns avanços para a classe baixa, como o redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de materiais de construção. 'Esse alívio na carga tributária atinge toda população, em especial a de baixa renda.'
Mas Treacher, da Inocoop, afirma que as habitações de interesse social, na sua maioria, não usam os materiais de acabamento atingidos pela desoneração, ficando o benefício mais concentrado nos fabricantes e revendedores de materiais para suprimento direto ao consumidor. 'Bidê, por exemplo, não é para imóvel popular.'
O executivo diz ainda que o crédito consignado dificilmente vai beneficiar as famílias com renda de até cinco salários mínimos mensais, já que a maioria é informal. No entanto trará maior segurança aos bancos credores e beneficiará a classe média com uma redução sutil na taxa de juros, que mesmo assim continuará altíssima.
O economista e presidente da Construtora Tarjab, José Tarifa, acredita que o pacote vai elevar o volume de crédito para imóveis entre R$ 100 mil e R$ 180 mil. Em valores mais baixos, diz ele, não há lucratividade para as construtoras, por isso há uma falta de oferta. Além disso, os terrenos estão caros.
Segundo ele, as medidas vão manter o boom de vendas que estava ocorrendo nos últimos meses na classe média. 'Não se mexe uma palha para solucionar o problema do déficit habitacional no País. No México deram subsídios, aqui aumentaram as taxas', disse Tarifa. 'Não me iludo mais. O que pode mudar essa situação é o crescimento econômico.'
No período de 12 meses acumulado até julho, o volume de financiamento com recursos da poupança tinha aumentado 92,25%. A expectativa é chegar ao fim do ano com 100% de empréstimos feitos no ano passado, afirma o presidente da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), Décio Tenerello. Ele avalia que as medidas do pacote somente terão algum impacto a partir do quarto trimestre.