Título: Uma fantasia de Mantega
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Fonte: O Estado de São Paulo, 19/09/2006, Notas e Informações, p. A3

A mais nova fantasia geoeconômica do governo deve chamar-se Grupo dos 4 (G-4) e está sendo gestada no Ministério da Fazenda. A idéia de reunir Brasil, China, Índia e África do Sul num grupo de consulta e cooperação econômica começou a ser examinada em São Petersburgo, em junho, como lembrou em Cingapura, numa entrevista concedida no domingo, o ministro Guido Mantega.

Ele e seus colegas daqueles três países haviam sido convidados para conversações paralelas à reunião do G-8, formado por EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Canadá e Rússia. Participaram de um café-da-manhã, mas não tiveram acesso ao encontro dos oito.

Que apenas oito houvessem participado da reunião do G-8 não deveria surpreender ninguém, nem causar decepção ou ressentimento. Por iniciativa dos governos americano e britânico, líderes daquele grupo têm aproveitado seus encontros periódicos para contatos com representantes convidados de economias emergentes. Quem quer vai e aproveita como pode a oportunidade para conversas produtivas ou para dar seu recado num ambiente enfocado pela imprensa internacional.

O ministro Mantega gostaria de um G-8 mais aberto e isso também é compreensível. Mas também é evidente que nesse caso não haveria um G-8, mas um G-qualquer-outra-coisa e isso parece não estar nos planos daqueles oito governos. Resta, portanto, segundo o professor Mantega, criar um grupo de emergentes. A ligação entre uma coisa e outra não é nada clara, mas foi o ministro que estabeleceu a relação, apresentando o G-4 como um contraponto ao G-8. Segundo ele, trata-se de quatro grandes economias, com grande peso internacional e com uma importante agenda comum.

Tudo isso parece muito confuso, mas a confusão tem sido uma característica das concepções geopolíticas e geoeconômicas do governo do PT. Quanto a isso, nenhuma surpresa.

Trata-se, de fato, de quatro economias de tamanho respeitável. Que os quatro países tenham alguns interesses comuns também é indiscutível, e alguns desses interesses têm sido examinados nos encontros Brasil-Índia-África do Sul,

Mas é uma completa fantasia a noção de que os quatro possam ter uma agenda paralela à do G-8. Os interlocutores mais importantes da China, da Índia e da África do Sul são os parceiros do Primeiro Mundo, não o Brasil. As prioridades da China e da Índia estão no mundo rico e na Ásia.

Um vice-ministro indiano disse ao Estado, recentemente, que seu país e o Brasil são concorrentes e não aliados estratégicos. O governo brasileiro cobrou uma retificação das autoridades indianas. Em vez disso, deveria ter aproveitado e agradecido a lição de realismo.

A aliança entre Brasil e Índia, no debate sobre a redistribuição de cotas e votos no Fundo Monetário Internacional, é mera casualidade. A China, beneficiada pelo primeiro reajuste de cotas, está do outro lado. A Índia também estaria, se houvesse entrado na lista inicial de beneficiários. Quanto à África do Sul, vem batalhando há anos, juntamente com os demais países da união aduaneira de sua região, por um acordo de livre-comércio com os Estados Unidos, enquanto o Brasil fez o possível para torpedear o projeto da Alca.

Não há, na estratégia internacional e nos projetos nacionais desses países, nada parecido com as ilusões terceiro-mundistas do governo brasileiro, que agora parecem haver contaminado também o Ministério da Fazenda - ou pelo menos seu chefe. O Ministério da Fazenda e o Banco Central distinguiram-se, no governo petista, por uma rara combinação de bom senso, realismo, clareza de objetivos e considerável sucesso na concretização de suas metas, ainda que alguns aspectos de suas políticas possam ser discutíveis. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva beneficiou-se politicamente desse trabalho.

É preocupante que o ministro da Fazenda, agora, dê sinais de haver aderido ao mundo de fantasia e de inépcia que tem caracterizado a política externa brasileira desde 2003. Quando se toma esse caminho, até as piores previsões podem revelar-se otimistas.