Título: Lula acusa oposição de golpismo e de tentar 'melar' eleição
Autor: Vera Rosa
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/09/2006, Nacional, p. A11
Sem esconder o aborrecimento com a nova crise que tomou conta de seu governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva acusou ontem a oposição de querer 'melar' a eleição ao tentar associá-lo ao escândalo do dossiê Vedoin. Na Organização das Nações Unidas (ONU), onde abriu os debates da 61.ª Assembléia-Geral, Lula repetiu duas vezes que acha 'abominável' a prática de montar dossiês contra rivais, disse que seus adversários querem 'criar confusão' e sugeriu que 'eles' são golpistas por não se conformarem com seu provável segundo mandato.
'Temos de levar em conta a quem interessa, nesta altura do campeonato, melar o processo eleitoral', afirmou, ao lembrar que está a 12 dias da eleição e em situação 'altamente favorável' nas pesquisas. 'Por que haveria alguém que quer me ajudar fazer um ato insano desses?'
Embora sem mencionar o nome do fiel escudeiro, Lula se referia a Freud Godoy, seu assessor especial no Planalto que acabou defenestrado após ser acusado de intermediar a compra do dossiê. Na ONU, o presidente respondeu a apenas uma pergunta dos jornalistas, antes de se dirigir à cerimônia para receber o prêmio Estadista do Ano de 2006, concedido pela Appeal of Conscience Foundation (Fundação Apelo da Consciência). Parecia querer mandar um recado. Quando os jornalistas quiseram saber a quem se referia quando falou em 'melar o jogo', virou as costas e foi embora, encerrando a entrevista.
Ao falar da tentativa de atrapalhar a eleição, Lula fez analogia com uma partida de futebol. 'Eu, de vez em quando, fico vendo as notícias e fico lembrando de um goleiro chileno que, na disputa final com o Brasil, finge que está machucado para tentar melar o jogo. Graças a Deus as investigações mostraram que ele estava fingindo.'
Sempre se referindo aos opositores do PSDB e do PFL como 'eles', Lula disse que os adversários querem impedir sua reeleição a qualquer custo e, por isso, fazem acusações infundadas. 'Faz mais ou menos dois anos que eles querem que eu não participe da reeleição. Faz dois anos que dizem que não vão permitir, que eles tentam criar todo tipo de confusão para evitar que nosso governo tenha o resultado que está tendo.'
Lula reiterou que mandou apurar as denúncias e aguarda o trabalho da Polícia Federal. 'A mim, como presidente, só cabe fazer uma coisa: investigar a fundo quem estiver envolvido, doa a quem doer. Eu acho que as pessoas que praticaram coisas ilícitas têm de pagar. O que não posso é aceitar que alguém tente fazer qualquer insinuação contra o governo com práticas que o governo repudia.'
Ele lembrou que na campanha de 1998 não aceitou a oferta do dossiê Cayman - com denúncias contra tucanos - e discordou dos que queriam usá-lo contra o então presidente Fernando Henrique, candidato à reeleição. 'Todo mundo conhece meu comportamento e sabe que acho abominável esse tipo de comportamento na política. Abominável', insistiu. 'Eu já perdi eleições, estive em situações altamente desfavoráveis e em nenhum momento utilizei qualquer tipo de denúncia contra qualquer candidato. Mesmo quando havia gente achando que eu deveria fazer, não fiz.'