Título: Lula acusa países ricos de falta de determinação na luta contra fome
Autor: Vera Rosa, Adriana Carranca
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/09/2006, Nacional, p. A15
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva elevou ontem o tom das cobranças aos países ricos, especialmente aos Estados Unidos, ao discursar na abertura da 61.ª Assembléia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Lula criticou a falta de 'determinação política' dos países desenvolvidos para derrotar o terrorismo, construir o caminho da paz e combater a fome. Mais: disse que, se a Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC) não for destravada, com o fim dos milionários subsídios agrícolas que punem os mais pobres, o mundo estará condenado a guerras.
'Se a Rodada Doha fracassar, as conseqüências serão sentidas muito além da esfera comercial. O crime organizado, o narcotráfico e o terrorismo encontrarão terreno fértil para prosperar.' Ao pregar o fim das 'amarras do protecionismo', insistiu que os subsídios agrícolas dos países ricos são 'pesados grilhões' que levam os pobres ao atraso. 'Não me canso de repetir: enquanto esse apoio nos países desenvolvidos alcança a indecorosa soma de US$ 1 bilhão por dia, 900 milhões de pessoas sobrevivem com menos de US$ 1 por dia nos países pobres e em desenvolvimento.'
Lula afirmou que a fome 'alimenta a violência e o fanatismo' e, ao falar dos conflitos no Oriente Médio, que a ONU enfrenta uma 'erosão' de credibilidade. E mais uma vez defendeu a reforma no Conselho de Segurança , com assentos permanentes para o Brasil e outros países em desenvolvimento.
Mesmo sem citar diretamente o presidente dos EUA, George W. Bush, Lula fez várias referências críticas à guerra ao terror imposta por ele ao mundo. 'Conflitos entre nações não se resolvem apenas com dinheiro e armas.' Ele pediu à platéia para comparar o custo de guerras com os US$ 50 bilhões anuais a mais necessários para cumprir as Metas do Milênio, de reduzir a pobreza pela metade até 2015. 'Todos aqui sabem que a segunda Guerra do Golfo custou várias centenas de bilhões de dólares.' Ele também não poupou a Europas. 'Pensem nas centenas de bilhões de dólares que foram investidos para levar adiante a plena integração dos países do Leste à União Européia.'
A secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, chegou atrasada e perdeu o início do discurso - Lula foi o primeiro a discursar, já que é tradicional o Brasil abrir os debates da ONU. Mesmo assim, Condoleezza entrou no plenário a tempo de ouvir as cobranças do presidente aos EUA. Com a voz mais rouca que de costume, Lula afirmou que o caminho da paz só se constrói com o desenvolvimento compartilhado e sugeriu que a ONU faça uma reunião com a participação dos países do Oriente Médio para resolver o conflitos. 'Não seria o momento de convocar uma ampla conferência, sob a égide das Nações Unidas, com a participação de países da região e outros que poderiam contribuir pela capacidade e experiência em conviver pacificamente com as diferenças?'
Em plena campanha e a 12 dias da eleição, Lula também apresentou na ONU uma espécie de prestação de contas de seu governo. Vestindo o figurino de 'pai dos pobres', repetiu o discurso que faz no Brasil: 'Destinar recursos para a área social não é gasto. É investimento.' Logo no início do discurso, ele falou do programa Bolsa-Família, que beneficia 'mais de 11 milhões de famílias brasileiras' e provocou: 'Se fizemos tanto no Brasil, imaginem o que não poderia ser feito em escala global se o combate à fome e à pobreza fosse de fato uma prioridade da comunidade internacional.'
Depois de Lula, e alheio a seu discurso contra o belicismo das nações ricas, foi a vez de Bush discursar. O presidente americano defendeu de novo sua política no Oriente Médio, principal alvo das críticas a seu governo.