Título: Espanha lança ofensiva antiimigração
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Fonte: O Estado de São Paulo, 30/08/2006, Internacional, p. A13

O governo espanhol decidiu lançar uma ofensiva diplomática para fazer com que a União Européia (UE) veja que o fenômeno da imigração ilegal deve ser abordado de forma conjunta e integral pelo bloco. O anúncio foi feito pela vice-primeira-ministra da Espanha, María Teresa Fernández de la Vega, que se reuniu ontem com a presidente da Finlândia (país que preside a UE neste semestre), Tarja Halonen.

A imigração ilegal para as Ilhas Canárias, no Oceano Atlântico, tomou uma proporção assombrosa. Desde o dia 1º de janeiro até segunda-feira, 28 de agosto, o número de imigrantes, a maioria da África Subsaariana, totalizou 18.782, o que dá uma média de 3 ilegais a cada 1 hora. O número não é apenas um recorde, mas 400% a mais do que o dos 12 meses de 2005.

De la Vega, a vice-primeira ministra da Espanha, pediu a ampliação até dezembro da Agência Européia de Fronteiras (Frontex) - que ajuda as autoridades espanholas a repatriar os imigrantes e a patrulhar por via aérea e marítima as costas do Senegal e da Mauritânia - e a dotação de mais recursos para a entidade.

A vice-primeira-ministra disse também que a Espanha se reunirá em breve com os países mediterrâneos da União Européia para estudar como reforçar o controle das fronteiras marítimas.

Hoje à tarde, De la Vega se reunirá em Bruxelas com o presidente da Comissão Européia, o português José Manuel Durão Barroso. O vice-presidente da Comissão Européia, Franco Fratini, disse ontem que está disposto a pedir aos Estados membros que colaborem mais com a Espanha na luta contra a imigração. Fratini admitiu que o dinheiro disponível para este ano é limitado.

O governo espanhol concedeu no início do ano passado três meses de anistia para imigrantes ilegais. Cerca de 700 mil pessoas receberam autorização oficial para viver e trabalhar na Espanha.

De acordo com o governo, a anistia era parte de uma política de imigração com base nas necessidades econômicas do país, para atender à demanda dos setores de construção e prestação de serviços (ler ao lado).

A anistia também esteve relacionada a outros dois fatores.

Por um lado, o governo espanhol não queria se desfazer dos milhões de euros recolhidos através de impostos. Por outro, tinha a preocupação de proteger os geralmente mal pagos e explorados imigrantes ilegais.

Muitos países da União Européia criticaram a anistia, assim como a oposição conservadora na Espanha, dizendo que ela serviria para encorajar novos imigrantes ilegais. Nos últimos cinco anos, a população de imigrantes vivendo na Espanha cresceu cerca de 400% (para 3,5 milhões), o que prova que o ritmo das deportações é bastante inferior ao da chegada de estrangeiros.

Apesar de o aumento ter sido grande, os imigrantes ainda representam apenas 9% da população espanhola de cerca de 40 milhões - não muito mais do que na maioria dos países europeus.

Pesquisas indicam que mais de 50% dos espanhóis, um povo que até recentemente cruzava o Oceano Atlântico ou os Pirineus em busca de uma vida melhor, estão preocupados com a elevação do número de imigrantes ilegais no país, principalmente por causa do aumento da criminalidade. A mídia tem informado sobre ataques de gangues formadas principalmente por imigrantes latinos ou do leste europeu.

O governo espanhol reconhece que um dos problemas da imigração ilegal - além dos milhares de africanos que chegam às Ilhas Canárias - é a falta de controle sobre os que já estão no país.