Título: O legado de Koizumi
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Fonte: O Estado de São Paulo, 29/09/2006, Notas e Informações, p. A3

Em cinco anos à frente do governo, Junichiro Koizumi conseguiu mudar o Japão. Num país em que as transformações, quando ocorrem, são muito lentas, é um feito histórico. Koizumi assumiu o cargo de primeiro-ministro com promessas de reformas e o deixa agora, cinco anos depois ¿ sua gestão foi uma das mais longas do pós-guerra ¿, com um saldo altamente positivo.

Mudou o aparelho estatal japonês, forçou o sistema bancário a acertar suas contas, quebrou o poder dos velhos grupos que dominavam seu partido, o Liberal Democrático (PLD), e iniciou um processo que, alguns anos atrás, era inimaginável: a privatização do correio japonês. E, como que para endossar sua gestão, a economia japonesa, após anos de estagnação, cresce de maneira consistente e estimula o consumo e os investimentos, contribuindo para o bom desempenho da economia mundial. Manter o crescimento, fazer avançar as reformas e, no plano externo, definir o novo papel do Japão não apenas no Extremo Oriente, mas no cenário mundial são os desafios que aguardam o novo primeiro-ministro, Shinzo Abe, eleito pelo Congresso nesta terça-feira.

Em 2001, Koizumi venceu a disputa pela presidência de seu partido, majoritário no Congresso, fato que lhe garantiu a chefia do governo, com a promessa de fazer reformas. Parecia apenas uma promessa eleitoral, que lhe permitia apresentar-se como novidade para o eleitorado e para o próprio partido, opondo-se às suas lideranças tradicionais. Seus longos cabelos brancos, em nítido contraste com a aparência sisuda dos velhos membros do PLD, seu gosto por música ocidental, incluindo rock, seu domínio dos meios de comunicação e o fato de não pertencer a nenhum dos tradicionais grupos dominantes representavam uma novidade num cenário político tão estagnado quanto o econômico.

Não foram poucas as resistências que teve de vencer. Havia uma aliança histórica entre os velhos políticos do PLD, a burocracia e grupos de interesse, especialmente do setor de obras públicas. De um lado, políticos garantiam recursos públicos para empresas privadas; de outro, havia financiamentos privados para campanhas políticas e a certeza, para certos burocratas, de que seu poder seria preservado.

Já na montagem de sua equipe de governo Koizumi rompeu essa aliança, ao escolher seu gabinete não com base na correlação de forças dentro do PLD, mas por critérios pessoais ou de competência. Entre os escolhidos estava Shinzo Abe, que, embora neto de um importante ex-primeiro-ministro (Nobusuke Kishi, que ocupou o cargo nos anos 50) e filho de um ex-ministro das Relações Exteriores (Shintaro Abe), não fazia parte de nenhum grupo partidário.

Koizumi reduziu os gastos públicos, desmembrou o órgão encarregado de contratar obras rodoviárias, que se transformara em uma das principais fontes de pressões por despesas governamentais e barganhas político-eleitorais, e forçou os bancos a contabilizar os empréstimos de má qualidade e a buscar o equilíbrio financeiro, sem o qual o crescimento estaria comprometido.

Deixou para o fim a privatização do correio, um tema complexo não apenas pelo dinheiro envolvido ¿ no Japão, o correio capta poupança popular e movimenta US$ 3 trilhões ¿, mas pelos interesses políticos que seriam prejudicados. Pelo fato de dispor de tanto dinheiro, o correio se tornara, mais do que o setor de obras rodoviárias, o principal foco das transações entre políticos, burocratas e empresas.

Derrotado na primeira tentativa no Senado, Koizumi dissolveu a Câmara Baixa (não tinha poderes para fazer isso com o Senado) e convocou eleições, expondo claramente ao eleitorado que o que estava em jogo era a privatização do correio e a continuidade das reformas. A vitória que obteve no segundo semestre do ano passado forçou o Senado a aprovar sua proposta, que já havia passado pela Câmara Baixa.

Shinzo Abe, de 52 anos, o mais jovem primeiro-ministro japonês do pós-guerra e o primeiro a nascer depois de encerrado o conflito mundial, prometeu ¿manter acesa a chama das reformas que arde há cinco anos¿. Seu programa inclui reformas do sistema fiscal, da seguridade social e aceleração da descentralização administrativa. Está em linha com o que Koizumi pregava.