Título: Presidente afirma que já bateu muito em FHC
Autor: Elder Ogliari
Fonte: O Estado de São Paulo, 26/10/2006, Nacional, p. A8
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem que não quer mais comparar seu governo com o de Fernando Henrique Cardoso. 'Nós já batemos muito neles', afirmou em entrevista às Rádios Gaúcha e CBN/Diário, desde Brasília. 'Agora eu quero comparar comigo mesmo.'
Lula fez a declaração ao responder sobre a composição de seu novo ministério, caso seja reeleito, prometendo fazer nos próximos 4 anos o dobro do que fez no primeiro mandato. O petista também defendeu negociações justas com a Bolívia e prometeu rediscutir as dívidas dos Estados com a União.
Em 40 minutos de conversa com os jornalistas, o candidato do PT também justificou sua aliança com o ex-adversário Esperidião Amin (PP) em Santa Catarina, em vez de apoiar a reeleição do ex-governador Luiz Henrique da Silveira (PMDB), que o PT ajudou a eleger em 2002. Lula disse tratar-se da 'dinâmica da política' brasileira: 'Apoiei o Luiz Henrique em outras campanhas. Estranhamente, ele preferiu neste momento fazer um acordo com PSDB.'
Ele admitiu que o fraco desempenho eleitoral nos Sul do País pode ser atribuído a uma expectativa de que o governo faria mais do que fez na região. 'Possivelmente não tenhamos feito tudo o que o povo do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina esperava que nós fizéssemos e isso temos que encarar com certa naturalidade.' O candidato lembrou que à época de Leonel Brizola o PT recebia muitos votos transferidos do PDT no segundo turno.
As relações com governadores da oposição no seu eventual segundo mandato, segundo ele, vão depender em grande parte da disposição para fazer parcerias com o governo federal. 'Da nossa parte, nós governamos da forma mais republicana possível. Quando alguém entra na minha sala para conversar um assunto, eu não quero saber de que partido ele é', destacou.
PMDB
Indagado sobre o relacionamento com o PMDB, Lula disse que o partido precisa passar por uma reciclagem, porque, apesar de ser influente em diferentes regiões do País, tem pouca densidade nacional: 'Eles precisam se fortalecer do ponto de vista nacional. É preciso que o partido tenha uma cara mais nacional, que deixou de ter desde Ulysses Guimarães.'
O candidato petista evitou citar nomes de futuros integrantes de seu ministério. Mas admitiu que serão indicados de acordo com a força dos Estados e da 'composição política'. Foi nesse momento da entrevista que fez referência às comparações com o governo anterior. 'Será um ministério para, a partir do que nós fizemos, ter mais agilidade, ser mais eficaz, para que a gente possa fazer nos próximos 4 anos o dobro do que fizemos nos primeiros 4. E eu não quero mais ficar me comparando com Fernando Henrique Cardoso, porque nos nossos 4 anos nós já batemos muito neles. Agora eu quero me comparar comigo mesmo.'
Sobre o envolvimento de seu amigo Jorge Lorenzetti no escândalo do dossiê Vedoin, Lula não quis falar. 'Fiquei muito decepcionado', limitou-se a dizer.
Em relação a mudanças nos índices de produtividade rural, tema de grande interesse para os Estados com maior produção agrícola, o presidente disse que elas só virão por meio de acordos: 'Não queremos fazer disso um ponto de conflito. Estivemos perto de construir um acordo no tempo do Roberto Rodrigues (ex-ministro da Agricultura) e vamos voltar à mesa.'