Título: 'Negro exige olhar diferenciado'
Autor: Clarissa Thomé, Karine Rodrigues
Fonte: O Estado de São Paulo, 27/10/2006, Vida&, p. A22
Na véspera do Dia de Mobilização Nacional Pró-Saúde da População Negra, comemorado hoje, a declaração do ministro Agenor Álvares foi bem recebida por quem trabalha com essa bandeira.
'O racismo é uma prática cotidiana e nefasta não só no SUS, mas em toda a comunidade médica', afirma a clínica geral Fátima Oliveira, do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em saúde da população negra.
Fátima escreveu em 2001 um relatório, a pedido da Organização Panamericana de Saúde, com um panorama histórico-social e científico sobre o problema (ver em www.opas.org.br/sistema/arquivos/0081.pdf).
Além da discriminação, ela mostra que há desconhecimento de singularidades da saúde do negro. 'Para tratar essa população, é preciso ter um olhar diferenciado, uma vez que uma série de doenças atingem os negros de modo diferente dos brancos.'
Fátima cita como exemplo a morte de mulheres no parto por eclâmpsia - hipertensão arterial não tratada durante a gravidez. Segundo ela, as negras têm uma probabilidade dez vezes maior de desenvolver o problema que as brancas. Mas essa peculiaridade, segundo a médica, normalmente não é levada em conta no pré-natal. 'É um crime não tratar a hipertensão.'
Outra doença mais freqüente em mulheres negras são os miomas uterinos, que acontecem cinco vezes mais do que nas brancas. 'A conduta geral para tratar as negras é histerectomia (retirada do útero), enquanto as brancas recebem medicamentos, como se o útero da mulher negra não valesse nada. É o que eu chamo de naturalização e banalização do racismo. É quase um eugenismo.'
A diabete tipo 2 também é muito mais freqüente entre mulheres negras, que têm 50% a mais de probabilidade de desenvolver a doença que as brancas.
Os homens também são vítimas da falta dessa 'percepção aguçada das diferenças'. Fátima explica que a hipertensão é uma doença que evolui de modo diferente. Em brancos é mais comum que em última instância ocorram enfartes. Já os negros tendem a desenvolver acidente vascular cerebral (AVC) ou insuficiência renal. 'É por isso que a maioria dos pacientes de hemodiálise é negra', explica.
Para Fátima, depois de reconhecer o problema, 'é necessário que agora o governo incorpore essa visão em todo o sistema médico'.