Título: Droga antiaids tem novo efeito colateral
Autor: Donald G. McNeil Jr
Fonte: O Estado de São Paulo, 29/10/2006, Vida&, p. A20
Com o aumento do acesso de países pobres a drogas contra aids, tem surgido um efeito colateral assustador e preocupante: em alguns pacientes, o tratamento pode revelar uma infecção dormente de hanseníase, alertam alguns especialistas.
Ninguém ainda sabe dizer qual o tamanho do problema. Por enquanto foi descrita apenas uma dezena de casos (sete só no Brasil) na literatura médica desde que o primeiro foi encontrado, em Londres, em 2003. Mas especialistas relatam que alguns pacientes que tomam anti-retrovirais estão desenvolvendo úlceras faciais dolorosas e perda de sensibilidade nos dedos das mãos e dos pés.
No terceiro mundo, onde 300 mil novos casos de hanseníase foram descobertos só no último ano e 38 milhões de pessoas estão infectadas com o vírus da aids, o problema deve inevitavelmente piorar. ¿Esta é apenas a ponta do iceberg¿, afirma William Levis, que trata pacientes com hanseníase no Hospital Bellevue, em Nova York. ¿A maioria dos médicos nem pensa na doença, então é provável que haja muito mais casos pelo mundo do que sabemos.¿
Para Gilla Kaplan, professora da Universidade de Medicina e Odontologia de Nova Jersey e uma das primeiras a estudar a conexão entre as duas doenças, o tratamento com anti-retrovirais ¿está trazendo à tona uma hanseníase silenciosa ao torná-la sintomática¿.
Especialistas acreditam que o problema surge quando as drogas antiaids recuperam o sistema imunológico gerando novos glóbulos brancos, que acabam carregando a bactéria de hanseníase, de infecções antigas e silenciosas, para a pele do rosto, mãos e pés.
Há tempos os médicos sabem que doenças inativas podem surgir quando um sistema imunológico fraco se recupera. A ameaça é conhecida como ataque Haart, acrônimo em inglês para terapia anti-retroviral altamente ativa. O corpo volta a reagir, mas em um paciente já fraco a resposta imunológica pode ser perigosa.
Esta é uma reviravolta em um paradoxo que confunde especialistas em doenças tropicais há 20 anos. Em meados dos anos 80, quando se percebeu que a aids não era uma doença apenas de homens gays americanos, mas estava matando milhões de pessoas de todo o tipo em países pobres, muitos médicos do sistema público de saúde profetizaram que a doença seria particularmente desastrosa para quem tivesse hanseníase.
É uma suposição lógica, uma vez que a doença é causada por germes da mesma família de bactérias que causam tuberculose, uma das principais causas de morte em pacientes com aids. Mas era alarme falso.
¿As pessoas esperavam um grande surto de hanseníase. Como não ocorreu, supusemos que pessoas co-infectadas simplesmente morriam antes de a hanseníase se manifestar¿, explica Diana Lockwood, da Faculdade Londrina de Higiene e Medicina Tropical. O período de incubação da doença é de 8 a 13 anos, enquanto da aids é de 8 a 10.
Além disso, pacientes que já estavam com hanseníase quando a aids se desenvolveu não apresentaram uma piora da primeira doença, sugerindo que as duas poderiam coexistir sem uma fortalecer a outra. Por isso a informação de que o tratamento contra aids poderia aflorar uma hanseníase incubada chocou a comunidade médica.
DIAGNÓSTICO DIFÍCIL O primeiro caso descrito em uma publicação científica foi de um ugandense exilado em Londres, paciente de Diana, que estava sendo tratado para tuberculose e aids e de repente desenvolveu uma lesão no rosto. ¿Levamos um tempo para perceber que era hanseníase¿, disse a médica. ¿Desde então temos vistos mais casos assim em pessoas no Brasil e na Índia.¿
O bacteriologista Michael S. Glickman, que tratou o único caso de co-infecção conhecido em Nova York, disse que também teve dificuldade em diagnosticar hanseníase em um paciente de Burkina Faso (África). A primeira vez que ele foi atendido, há seis anos, apresentava um quadro avançado de aids. Sua contagem de células CD4 era menor que 10 (quando o normal é mais de 500). Com o tratamento anti-retroviral, a contagem subiu para 600, mas aí ele desenvolveu um leve padrão de coloração na pele, que Glickman notou estar insensível ao toque. Como o médico havia visitado a clínica de William Levis anteriormente, conseguiu ligar os pontos. ¿Se eu já não tivesse visto pacientes com hanseníase, eu não saberia o que é¿, disse.
O tratamento em Nova York e Londres é relativamente simples, mas a situação se complica nos países pobres que enfrentam as duas epidemias, como a Guiana Francesa, por exemplo. Pierre Couppié, chefe de dermatologia do Hospital Central em Caiena, acredita que 1 em 500 pacientes de aids deve apresentar lesões de hanseníase logo após começar o tratamento.
No Brasil já foram registrados sete casos de co-infecção na literatura médica. Nenhum estudo amplo está sendo feito no País para contabilizar o problema, mas Patricia Deps, especialista em hanseníase da Universidade Federal do Espírito Santo, afirma que tem se tornado cada vez mais comum. ¿Nós não temos números, mas estimamos que cerca de 2% dos casos de hanseníase no Brasil estão co-infectados com HIV.¿
Até o momento, a Índia é o foco de maior preocupação dos especialistas. Até há pouco tempo, o país concentrava 70% dos casos de hanseníase do mundo, mas, depois de 20 anos de campanha agressiva para diagnosticar e tratar a doença, declarou no ano passado que o mal já não era mais um problema de saúde pública. Entretanto, isso ainda significa uma média nacional de 1 caso para 10 mil cidadãos, ou seja, 100 mil por ano.
Para piorar, há cerca de 5,2 milhões de pessoas infectadas com o HIV na Índia, que deve em breve superar a África do Sul com o país com o maior número de vítimas da doença. Mas, como a epidemia lá começou depois, o tratamento ainda não deslanchou. Quando isso ocorrer, a hanseníase deve também proliferar.