Título: Presidente governa pela intuição
Autor: Vera Rosa
Fonte: O Estado de São Paulo, 29/10/2006, Especial, p. H5

Habituado a esgotar todos os prazos para pensar com os próprios botões, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva promete deixar ministros e políticos aliados em alta ansiedade nos próximos 60 dias. A um passo de conquistar hoje o segundo mandato, após 122 dias de uma campanha temperada por denúncias de corrupção em dois turnos, o presidente dá sinais de que no provável novo governo o velho estilo Lula de decidir entrará em ação.

'Eu ainda tenho quase dois meses para pensar num governo que só começa no dia 1º de janeiro de 2007', diz ele, para desespero de petistas, comunistas, peemedebistas e outros tantos 'istas' à espera da definição de seus destinos na Esplanada.

Lula tem um jeito pouco ortodoxo de tomar decisões. No Palácio do Planalto, o método ficou conhecido como 'raciocínio dialógico'. 'É a partir dos diálogos e das opiniões contra e a favor que ele faz a síntese', conta o chefe de gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho, seu amigo há mais de duas décadas e um dos poucos sobreviventes do terremoto político que abalou o governo.

Um veredicto do presidente começa quando ele passa a ouvir os mais próximos. Sempre foi assim, desde que comandava o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (1975-1980). Depois, vai à caça dos contraditórios. Nessa fase, que pode durar de uma semana a meses de agonia, ele próprio faz a sabatina e o papel de advogado do diabo.

É comum Lula torcer o nariz para uma idéia que lhe é apresentada pela primeira vez, principalmente se for sob o rótulo de prato feito, o remédio para todos os males: desconfiado, quer saber por que deveria ser assim e não assado e quais os efeitos do caminho do meio. No fim das contas, dono do tempo e da caneta, costuma resolver tudo sozinho, muitas vezes depois de consultar a primeira-dama, Marisa Letícia.

'Por que os juros têm que continuar altos desse jeito e o superávit primário também?', perguntou ele ao então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, em outubro de 2004, antes da crise que devastou seu governo no ano seguinte, quando o assunto que ainda o preocupava era a economia.

Sob fogo cruzado da ala desenvolvimentista, Palocci chegou a argumentar que uma solução para baixar os juros seria promover esforço fiscal maior. Na mesma sala, o então chefe da Casa Civil, José Dirceu - que caiu oito meses depois, abatido pelo escândalo do mensalão -, ouviu a proposta do colega, com quem disputava os rumos do governo, e entrou na conversa. 'Eu topo. Se for assim está fechado', encerrou.

Avesso a decisões por impulso, o presidente não gostou da interferência, o Banco Central também não e a vida seguiu em frente até a queda dos dois 'generais', patente usada no Planalto para Dirceu e Palocci.

Na prática, as ruidosas crises que jogaram na fogueira quase todos os homens do presidente e fizeram a cúpula do PT desabar acabaram revelando que tudo se torna muito mais difícil quando a decisão envolve demissões. 'Custou muito a ele ter de afastar o Zé e o Palocci', atesta Carvalho.

Nas sucessivas trocas de ministros e diretores de estatais ocorridas depois que Roberto Jefferson (PTB) denunciou, em junho de 2005, o pagamento de propina a parlamentares pelo governo, para obter apoio no Congresso, Lula passou a adotar estilo mais centralizador.

Numa das reuniões matinais da coordenação política, um dos ministros sugeriu uma indicação. O presidente o cortou: 'A experiência me ensinou, meu caro, que não devo, não posso e não vou transferir essa responsabilidade. Eu vou ouvir as pessoas individualmente e depois tomar a decisão.'

CULPA

No diagnóstico dos mais ferrenhos adversários, Lula é um político autoritário e prepotente, que se livra dos companheiros para salvar a própria pele. Os rivais colecionam histórias para provar que ele sempre joga a culpa por desvios éticos nas costas de alguém.

Exibem como último exemplo dessa personalidade controversa o escândalo da negociata promovida por petistas para comprar um dossiê contra tucanos, quando Lula chamou amigos de 'bando de aloprados'.

'Eu não posso acreditar que esses imbecis tenham cometido uma loucura dessas. De novo, não!', protestou o presidente em 15 de setembro, ao saber das prisões dos petistas Gedimar Passos e Valdebran Padilha, acusados de tentar comprar, por R$ 1,75 milhão, um pacote com fotos e DVD que ligariam José Serra, hoje governador eleito de São Paulo, e o adversário Geraldo Alckmin à máfia dos sanguessugas.

Na versão dos que com ele convivem, Lula é um presidente que, por ser líder de massas, não gosta dos rapapés da articulação política de gabinete nem da burocracia do dia-a-dia. Teria, por esse raciocínio nada 'dialógico', delegado tarefas demais nessa seara, ficando acuado e sem escolha quando as crises estouraram. Agora, mais maduro no poder, estaria pronto a corrigir todos os 'erros' ou 'lambanças' cometidos por seus pares.

'Lula tem coração mole e sofre quando precisa demitir. A gente nem sabe de onde ele tira forças para reagir às situações difíceis', observa o deputado Devanir Ribeiro (PT-SP), um de seus amigos desde a época do sindicalismo.

Entre a fúria da oposição e a visão romântica dos companheiros de jornada, que enxergam Lula como uma espécie de super-herói, porta-voz mundial dos fracos e oprimidos, provavelmente exista um homem transformado pelo poder, diferente do que subiu a rampa do Planalto, em 2003. Aos 61 anos, pragmático e embrutecido pelas crises, o presidente somente volta a ser o velho Lula nas viagens e no contato com o povo, seu 'oxigênio' para escapar da solidão e dos bajuladores.

Auxiliares afirmam que cada vez mais ele toma gosto por projetos de infra-estrutura, com impacto na área social. Tem, ainda, 'obsessões', como o Biodiesel e o H-Bio, mistura de diesel com óleo vegetal, além do crédito consignado.

MAMONA

Sementes de mamona 'enfeitam' o seu gabinete, no terceiro andar do Planalto, dividindo espaço com São Francisco, Nossa Senhora e uma mão aberta, símbolo judaico conhecido por 'chamsa', presente do rabino Henry Sobel, em janeiro. 'A mão aberta representa um gesto de paz num mundo de ódio', afirma Sobel. Lula acredita que o amuleto o protege do mau olhado. 'Enquanto eu for presidente, ficará aqui', jura.

Quando ministros entram no gabinete para mostrar os resultados de suas pastas em PowerPoint, a nova sensação tecnológica com recursos gráficos, Lula não deixa por menos: 'Você trouxe o engana-presidente?'. Tem sempre em mãos fichas dos assuntos que despacha, com capas transparentes e informações sobre todos os programas do governo, preparadas pelas assessoras Clara Ant e Miriam Belchior - uma dupla inseparável apelidada por ele de 'cajazeiras'.

'São vários temas, do biodiesel à hidrelétrica, passando por segurança. O presidente coordena os grupos, estabelece metas e dá prazos. Não aceita explicação simples. É totalmente executivo', assegura o ministro da Fazenda, Guido Mantega, que o acompanha desde os anos 80. 'Para nosso azar, ele tem memória privilegiada. Lembra de tudo e cobra na lata: seu padrão de exigência é muito alto e as pessoas têm medo dele, literalmente', emenda Carvalho.

As broncas federais já viraram marca de Lula. Há seis meses, quando a equipe econômica resistia em ampliar a meta de famílias beneficiadas pelo Bolsa-Família de 8 milhões para 11,1 milhões, alegando que o gasto de R$ 8,5 bilhões prejudicaria o ajuste fiscal, o presidente explodiu.

'Olhem aqui: cada grande empresário que entra nessa casa vem buscar milhões para investimentos e vocês não colocam obstáculo. Não me peçam para entrar para a história como o presidente que tirou dinheiro dos pobres', gritou.

No ano eleitoral, tudo foi aprovado como Lula queria e a popularidade que hoje deve reconduzi-lo à Presidência foi conquistada justamente nas classes menos favorecidas. Na sua quinta campanha rumo ao Planalto, a intuição venceu a razão. Na ponta do lápis.