Título: 'Luta contra corrupção só avança se houver pressão internacional'
Autor: Carlos Marchi
Fonte: O Estado de São Paulo, 29/10/2006, Especial, p. H12
Eleger um governante arranhado por escândalos de corrupção não incomoda o eleitor latino-americano, mas negar o voto a um candidato 'envolvido' com as privatizações tem uma lógica continental, afirma a economista chilena Marta Lagos, diretora do Latinobarómetro, entidade que acompanha a evolução das opiniões da América Latina. O opção do eleitor brasileiro se circunscreve naquela lógica: ele não se impressiona com acusações de corrupção, mas é sensível à demonização das privatizações.
Marta afirma que o eleitorado de baixa renda no Brasil, como em outros países latino-americanos, está acostumado com regimes em que há corrupção. 'O determinante para o voto me parece ser a crença de que Lula vai fazer mais pelos pobres do que o outro candidato', diz. Mas esse mesmo eleitorado se sente até hoje enganado pelo processo de privatizações, que lhe foi (mal) vendido como uma panacéia de prosperidade e não resolveu os problemas do País, segundo a compreensão dos segmentos mais pobres.
Marta diz que eleger governantes envolvidos com corrupção é muito perverso porque significa que eles não terão uma condenação por parte do eleitorado. 'É tremendamente perverso para a democracia e, sem dúvida, dificulta a luta para vencer a corrupção', observa. Ela considera que, na América Latina, a democracia criou 'expectativas desmedidas sobre o que é capaz de prover às pessoas '. Eis a entrevista concedida ao Estado:
Que expectativa a democracia transmite aos latino-americanos?
As populações têm sempre expectativas pouco realistas sobre os benefícios que um governo e o Estado podem lhes conceder. E a democracia, principalmente na América Latina, criou expectativas desmedidas sobre o que é capaz de prover às pessoas.
As pessoas sonham com soluções muito rápidas?
Uma parcela dos povos latino-americanos acredita que um país só pode resolver os seus grandes problemas num tempo aproximado de 20 anos; mas a parcela mais pobre, que representa pelo menos um terço - e que no Brasil é de pelo menos a metade -, acredita que esses problemas podem ser resolvidos em quatro, cinco anos, no espaço de um governo. É isso que faz com que elementos negativos, como a corrupção, não tenham relevância para eles. Os escândalos atuais podem ser julgados com rigor por uma parcela dos brasileiros, mas posso lhe garantir que eles não são um elemento determinante para o voto. O determinante é a crença de que Lula fará mais pelos pobres do que o outro candidato.
Segundo o Latinobarómetro, os latino-americanos entendem que a democracia só é boa se produzir benefícios concretos para os pobres. É um conceito razoável, não?
Existem três demandas específicas na democracia. Uma é a demanda pelos bens políticos, que premiam Lula, que chegou à Presidência vindo de uma família de analfabetos, representa a mobilidade social, enfim, é um 'deles'. Outra é a demanda por bens econômicos, hoje indispensáveis a todos. E a terceira é por bens sociais. O problema das democracias latino-americanas é que elas têm de atender a essas três demandas simultaneamente. Na Europa, essas três demandas foram atendidas de maneira seqüencial. Aqui, não: nós queremos tudo de maneira simultânea. Nenhum governo pode fracassar economicamente e ser, ao mesmo tempo, bem sucedido na consolidação da democracia. Tem de alcançar as duas coisas juntas. Se um governo não logra avançar na luta contra a pobreza, não terá futuro nessa terra...
Na campanha eleitoral brasileira, o candidato do PSDB, que comandou as privatizações, foi crucificado. Por que as privatizações são tão mal recebidas pelas pessoas?
As privatizações foram anunciadas com uma mensagem de prosperidade, ícones de um futuro melhor, exemplo de desenvolvimento, de solidez e de estabilidade. As privatizações foram vendidas às populações como uma panacéia que solucionaria todos os problemas. Na verdade, elas solucionaram a questão macroeconômica, alguns problemas de superávit, buracos nos caixas dos Estados, mas não resolveram os grandes problemas das sociedades.
Como se consolidou a frustração com as privatizações?
O desencanto se produziu, em primeiro lugar, porque as pessoas não foram informadas antes que, com as privatizações, teriam de pagar mais por luz, telefone e água; e que não haveria mais um Estado benevolente para ajudá-los, com subsídios, a suportar os altos custos dos serviços básicos. A frustração se produziu porque as pessoas receberam antes uma promessa de prosperidade e, depois, perceberam que a prosperidade lhes custaria caro. Na verdade, esqueceram de explicar aos pobres que as privatizações eram um instrumento macroeconômico essencial, não para trazer prosperidade, como foi anunciado, mas para corrigir a maneira como funcionava a economia.
Mas em 1995, no Brasil, um telefone custava US$ 3 mil e não se conseguia um. Hoje temos 90 milhões de celulares. As pessoas não valorizam isso?
É verdade, mas quem compra celulares são pessoas que têm posses. As pessoas mais pobres não têm como pagar o seu preço. Existem sistemas alternativos no caso dos telefones, um sistema muito aberto, mas no caso da luz e da água é uma empresa só, não há concorrência. E não existem, também, produtos capazes de substituir a água e a eletricidade. Então, efetivamente se produziu um retrocesso no fornecimento desses serviços básicos à gente pobre. Na verdade, o processo de privatização se caracterizou, em todos os lugares, pela implantação de uma política muito mal comunicada às populações.
O segundo grande tema da campanha eleitoral brasileira foi a corrupção. Quem foi acusado de privatizar, vai perder; quem foi acusado de corrupção, vai ganhar. Qual a lógica disso?
É muito perverso eleger governantes envolvidos com corrupção, porque isso significa que eles não tiveram uma condenação clara por parte do eleitorado. É tremendamente perverso para a democracia e, sem dúvida, dificulta a luta para vencer a corrupção. Com que legitimidade, amanhã, se faria uma luta para eliminar a corrupção, se o eleitorado não lhe dá nenhum valor? Assim, a luta contra a corrupção só avançará se houver uma pressão internacional para fixar padrões que permitam sistematizá-la. Se não houver essa pressão internacional, vai parecer fácil praticar corrupção.
Por que o eleitor não liga para a questão ética?
Em países como Brasil, México e Argentina, os cidadãos já estão acostumados a regimes que praticam muita corrupção. É normal, nesses países, que em épocas de avanços significativos, a corrupção seja esquecida. Nessas horas, ela costuma ser, de alguma forma, varrida para debaixo do tapete, para não ser vista.
E quando, mesmo com a sujeira à vista, o povo não se importa?
É muito raro existir um político que seja totalmente limpo e que mantenha, à sua volta, um sistema imune à corrupção. Se existisse, seria notável, mas ele não existe. As acusações de corrupção estão em todos os lados, não existe um sistema impermeável à corrupção. Por tudo isso, as acusações de corrupção se anulam. Alguém dirá: é dramático que o povo brasileiro eleja Lula, apesar da corrupção. Mas é preciso entender que o povo não está elegendo a corrupção, mas um governante que, para eles, vai fazer mais pelos pobres que o outro. Um escândalo de corrupção, apenas, não é suficiente para que o povo abandone a esperança que acalentou.
Segundo o Latinobarómetro, 69% dos latino-americanos crêem no surgimento de um líder que resolva todos os problemas do seu país. O que representa essa idéia missioneira?
Nós perguntamos às pessoas: se por acaso aparecer uma pessoa - um economista, um especialista, um militar, um marciano, qualquer um - que lhe diz que vai resolver todos os seus problemas, você votaria nele? Uma grande maioria respondeu que sim. Se eu não tenho nada e vejo outras pessoas ficando ricas, vejo aumentar a distância entre ricos e pobres, e me aparece um político que me diz que vai resolver todos os meus problemas, eu voto nele. Eu entendo que esse gesto é muito razoável, mas em verdade ele traz, em seu conteúdo, uma demanda desesperada.
Segundo o Latinobarómetro, os atuais cidadãos latino-americanos representam uma geração frustrada, espremida entre duas gerações que tiveram ou terão melhores oportunidades. Que especiais dificuldades teve a nossa geração?
A nossa é uma geração que sabe que seus filhos terão um futuro melhor e que sabe, também, que a democracia não nos trouxe nada de especial, que melhorasse nossas vidas. É por isso que existe tanta ansiedade de eleger qualquer um, porque os cidadãos sabem que não terão acesso à prosperidade, à felicidade, à ascensão social. Isso tudo vai chegar para outros, no futuro. Isso, sem dúvida, incentiva o populismo, a venda de ilusões, a criação de falsas esperanças. Recentemente, tivemos um milhão de jovens chilenos protestando nas ruas. Por que os jovens foram às ruas? Porque eles estão percebendo que, para eles, tampouco, os benefícios não vão chegar. E olhe que, quando alguém protesta de forma tão drástica é porque está percebendo que a prosperidade vai passar ao lado e não vai entrar em sua casa. É por isso que o populismo cresce.
O Brasil é o campeão latino-americano de ignorância sobre democracia. Na Argentina e México, só 10% dos cidadãos não sabem dar o significado da democracia; no Brasil, esse número é de 59%. Isso quer dizer falta de educação política ou mera falta de educação?
Antes de tudo, é uma mera falta de educação. O porcentual brasileiro mostra, sem dúvida, que o Brasil, pelo baixo nível educacional de algumas de suas regiões, tem uma grande tarefa pela frente, não para solucionar a conceituação do que é democracia, mas para gerar educação, em sua inteireza. Em segundo lugar, isso significa que uma geração precisa ser educada na democracia para entender o que é democracia. Democracia não cai do céu. A primeira geração de jovens educada em plena democracia vai ter uma concepção muito mais precisa do que é democracia do que os velhos, os analfabetos e os camponeses com educação básica. Mas isso vai melhorando na vivência entre gerações, embora as mudanças cheguem muito lentamente. Na América Latina, a democracia se entranha na vida das pessoas pelas experiências, não pela teoria. É por isso que as nossas instituições têm dificuldades: para haver legitimação, temos de fazer coisas, aprender caminhos, eleger pessoas. Esse é um dos grandes trunfos de Lula. Sua primeira vitória foi o programa inicial, Fome Zero, que significou uma mensagem enviada às pessoas dos segmentos mais pobres. Pouco importa que o resultado do programa não tenha sido bom. O que importou é que pela primeira vez alguém, no Brasil, enviou uma mensagem à grande maioria até então esquecida. Para eles, isso superou qualquer outro erro que Lula tenha cometido em sua trajetória.