Título: Política externa também será julgada
Autor: Denise Chrispim Marin
Fonte: O Estado de São Paulo, 29/10/2006, Especial, p. H13

A eleição hoje dará uma resposta sobre um tema excluído do tiroteio entre o presidente Lula e o tucano Geraldo Alckmin na campanha - a política externa. As urnas vão definir se o Brasil continuará priorizando as relações com o Terceiro Mundo e a briga pela vaga permanente no Conselho de Segurança da Nações Unidas (ONU), e manterá a atuação generosa e tolerante com países da América do Sul, a esperança de ter a Índia, a Rússia e a China como parceiros estratégicos e os projetos internacionais contra a fome e a pobreza. Ou se seguirá via contrária.

As propostas dos candidatos trazem pelo menos três aproximações. A primeira é a continuidade da Cooperação Sul-Sul - a promoção do comércio com países em desenvolvimento. A segunda é a aproximação com as outras principais economias emergentes, Rússia, Índia e China. A terceira, a preservação da política de integração com vizinhos sul-americanos. Apenas o esforço despendido em um ou outro governo seria diferente.

Ambos preservam decisões de Estado já consolidadas. Como os compromissos do Brasil com a não-proliferação de armas de destruição em massa e a defesa dos direitos humanos e do meio ambiente, bem como a batalha pela conclusão da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC). Mas as semelhanças param por aí.

A proposta de Alckmin parte do princípio que não há mais conflitos latentes entre Norte e Sul nem justificativas para uma mudança focada na aproximação com países em desenvolvimento. 'Vamos mudar a ênfase, ao dar prioridade às relações com as maiores e mais dinâmicas economias do mundo. O importante é fazer comércio com países desenvolvidos, como faz a China', afirma o embaixador Rubens Barbosa, responsável pela exposição do programa tucano para a área e um dos nomes cotados para o Itamaraty. 'A política do governo Lula traz uma visão de mundo equivocada. A globalização exige decisões aceleradas e liberadas de ideologias partidárias.'

Na base de Lula, uma frente tem as mesmas críticas e gostaria de mais pragmatismo. Mas a tríade que comanda a política externa - o ministro Celso Amorim, o assessor internacional do presidente, Marco Aurélio Garcia, e o secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães - deixou claro ao Estado que não haverá mudança. 'Não deixamos de dar ênfase às relações com países desenvolvidos. Temos excelentes relações com os EUA', garante Amorim. 'O empresário brasileiro não precisa o Itamaraty o leve pela mão para esses mercados. Já conhece o caminho. Para mercados não tradicionais é diferente. Onde não há estrutura, o Itamaraty organiza missões.'

Alckmin promete esforços para retomar as negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) - ponto excluído da agenda de Lula, pelo menos enquanto a Rodada Doha não estiver fechada - e para a conclusão do acordo de liberalização comercial entre Mercosul e União Européia, este, sim, objetivo de Lula. Para Amorim, a Alca continuará emperrada pela falta de vontade dos EUA e pela elevada sensibilidade do tema no Brasil. 'Nem sempre um setor brasileiro quer pagar a conta da abertura comercial que favorece outro setor', diz.

'O governo Alckmin promoverá aproximação com os EUA, em vez de manter uma política ideológica contrária a um acordo com o maior parceiro comercial do Brasil', contrapôs João Carlos de Souza Meirelles, coordenador do programa tucano. 'Temos de tratar o hemisfério em seu conjunto, e não como três Américas isoladas.'

O pragmatismo dos tucanos mira em cheio o Mercosul, que passará por 'ampla reflexão' - eufemismo para a obtenção de apoio social em favor do recuo do bloco para uma área de livre comércio, algo impensável no governo Lula. 'O Mercosul é como areia movediça. Será preciso repensá-lo, mesmo que seja para retomar o bloco apenas como área de livre comércio', resume o economista Roberto Giannetti da Fonseca, colaborador de Alckmin no programa.

ONU

Os programas dos dois adversários mostram clara contraposição sobre a inserção do Brasil na esfera global. Lula defende a continuidade de sua campanha de combate mundial à fome e à pobreza e de sua batalha em favor da vaga para o Brasil no Conselho de Segurança.

Num governo Alckmin, esses objetivos serão relegados a segundo plano. Segundo Barbosa, a retirada das tropas brasileiras do Haiti será agendada e várias das embaixadas abertas pela administração Lula na África serão fechadas. Do ponto de vista tucano, mais vale o ingresso efetivo do Brasil no G-8 (grupo das sete economias mais industrializadas, somado à Rússia) e na Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).