Título: Hegemonia da esquerda em jogo na América Latina
Autor: Denise Chrispim Marin
Fonte: O Estado de São Paulo, 29/10/2006, Especial, p. H13
A disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin se dá num cenário de divisão da América Latina. A região vive processos eleitorais que a deixaram cindida, aos olhos do mundo, entre governos nacionalistas (ou de esquerda) e liberais (ou de direita). A provável vitória de Lula servirá para manter a hegemonia do primeiro bloco.
A corrente liberal ganhou alguma força na América Latina com a reeleição de Álvaro Uribe, na Colômbia, Alan García, no Peru, e Felipe Calderón, no México. Mas o avanço nacionalista teve como principal sinal a eleição de Evo Morales na Bolívia. Movimento que deve ser confirmado com a provável reeleição de Hugo Chávez, na Venezuela, em 3 de dezembro. Na Argentina, o peronista Néstor Kirchner deve, com boa chance de vitória, disputar a reeleição em 2007 ou apoiar a candidatura de sua mulher, a senadora Cristina Fernandez.
Como no Brasil, as duas correntes se enfrentarão no dia 26 no segundo turno da eleição no Equador, entre o empresário Álvaro Noboa (liberal) e o economista Rafael Correa (nacionalista). Dois países se mantêm um tanto à margem dessa divisão. Uruguai, com Tabaré Vázquez, e Chile, com Michele Bachelet, elegeram governantes de DNA esquerdista, mas atitude menos hostil à globalização.
O especialista Pedro da Motta Veiga avalia que a reeleição de Lula daria suporte mais retórico do que prático ao grupo nacionalista. Para ele, atitudes como congelamento de preços e o default da dívida externa na Argentina, a desmobilização das agências reguladoras no Brasil, a nacionalização de empresas estrangeiras na Bolívia e o manejo irresponsável da política econômica na Venezuela reforçam a visão da América Latina como região de incertezas e regras pouco respeitáveis. 'Não é fama injusta. É resultado da mudança de regras. Por isso a América Latina não sai do lugar.'
Já o assessor internacional de Lula - e coordenador de campanha -, Marco Aurélio Garcia, vê a vitória de governos populares, não populistas. 'O nacionalismo não é um mal, mas o fortalecimento do valor da soberania, que foi minimizado anteriormente', argumenta. 'Essa visão de que há uma expansão da esquerda nacionalista junta dois clichês pobres, ideológicos e preconceituosos. O que há é a expansão da participação popular nas decisões políticas.'
Para Motta Veiga, o alinhamento de Lula com Chávez, Kirchner e Morales, embora mais retórico, lhe permite tentar 'domar' suas atitudes mais intempestivas. A relação com o presidente venezuelano é bom exemplo. 'Chávez faz um jogo duplo. Ele mostra que admira o Brasil e o presidente Lula, mas quer se tornar mais influente na América do Sul. Não somos bobos.'
De fato, o governo Lula colecionou rusgas e sustos com Chávez, contornados pelo contato direto e franco, em geral partindo do próprio Lula. Para o ex-chanceler Celso Lafer, o venezuelano tornou-se um 'indutor de tensões' que desagregam a integração sul-americana e põem em xeque a posição de liderança 'mais construtiva' do Brasil.