Título: De Kennedy até hoje, a receita é não errar
Autor: Vera Rosa, Ana Paula Scinocca
Fonte: O Estado de São Paulo, 08/10/2006, Nacional, p. A4
Se o presidente Lula e seu rival Geraldo Alckmin pudessem fazer um pedido, talvez gostassem de ser, apenas esta noite, John Fitzgerald Kennedy. Jovem, bonitão, com boa voz e muito carisma, Kennedy era o candidato do Partido Democrata dos EUA, em 1960, e fez do primeiro debate presidencial pela TV uma inesquecível aula de política.
No acanhado palco de uma TV de Chicago, ele ignorou o rival republicano, Richard Nixon, e o mediador do confronto. Fixou-se quase o tempo todo na luzinha vermelha, falando olho no olho para 75 milhões de americanos. Plantou ali sua marca de líder, ganhou as eleições e abriu um reluzente caminho para marqueteiros e assessorias pelo mundo afora. Dali por diante - como se verá novamente esta noite, em São Paulo - o que dizer, como dizer, o gesto calculado e outros truques foram transformados em armas, em votos, em vitória.
E naquela mesma noite, 26 de setembro de 1960, começou também a guerra contra o marketing político. 'Televisão é um meio muito bom para vender personalidades... e não parece que sirva para muitas outras coisas', sentenciava depois do programa um respeitado crítico, Hallock Hoffman. Outro, Henry Steele, ia mais longe: 'Esperemos que esses debates na TV sejam eliminados de futuras campanhas. Essa fórmula é montada para corromper o julgamento público e, por fim, todo o processo político.'
Se alguém duvida de Hoffman e Steele, pode conferir os conselhos dados aos debatedores por um expert nas malandragens dos marqueteiros, o prefeito Cesar Maia, em seu ex-blog. Um deles: 'Não arredonde os números: use os números reais quebrados, que têm muito mais credibilidade.' Outro: 'Pergunte algo insípido e técnico num campo que você domina bem, e em sua réplica dê uma aula.'
Mas as queixas morreram e a idéia vingou. Os presidentes Ronald Reagan e Bill Clinton dela se valeram para nocautear seus adversários, em noites memoráveis da história política americana. 'Para decidir seu voto, veja se sua vida está melhor hoje do que há quatro anos', pedia Reagan em 1981, sepultando eleitoralmente o rival Jimmy Carter. Clinton, já nos anos 90, passeava pelo palco, leve e solto, falando fácil, enquanto George Bush (pai) era flagrado pela TV olhando o relógio com impaciência. Mais comportados e sem charme, os debates da Europa tiveram bons confrontos entre François Mitterrand e Giscard d'Estaing, na França - mas isso foi uma exceção ao aborrecimento geral.
Os europeus têm suas razões para rejeitar a TV como veículo para discussões sérias: lá o jogo é outro e frases de efeito ou promessas grandiosas podem pegar mal. Mas num sistema político chegado ao espetáculo, como o do Brasil, a receita tem tudo para pegar, ainda que o excesso de partidos e o gosto por regulamentar tenham dado a tais encontros, como diz o cientista político Bolívar Lamounier, 'uma lamentável cara de evento ginasiano, os candidatos como alunos e o moderador como mestre-escola'. Debates agressivos incomodam, admite Bolívar, 'mas as tevês e a Justiça Eleitoral desandaram a regulamentar tudo e erraram a mão'.
Ainda assim a estréia do modelo, em 1981, até que foi boa: o candidato a governador de São Paulo, Franco Montoro (PMDB), disparou um histórico 'cala a boca!' contra Reinaldo de Barros (PDS), que o acusava por ter 'cinco, cinco, aposentadorias!'. Só em dezembro de 1989, no confronto entre Lula e Fernando Collor, os debates ganharam drama e prestígio. Era a primeira eleição de presidentes desde 1960 e Collor, mantendo perto de si uma pasta cheia de papéis, acabou com o sistema nervoso do rival. No dia seguinte, uma edição do debate na TV Globo, favorável a Collor, ajudou-o a vencer a briga.
Com o tempo, o eleitor brasileiro decidiu que essas noites são decisivas. 'Mas ele percebe os truques e sabe filtrar o que é mostrado', afirma a analista Fátima Pacheco Jordão. No correr da campanha, 'o cidadão vai detectando os truques, as entrevistas em que gente na rua dá entrevistas decoradas. Ele vê o debate para descobrir fraquezas, uma brecha, uma pegadinha.'
E os erros podem ser fatais. Fernando Henrique Cardoso desabou quando Bóris Casoy lhe perguntou se acreditava em Deus. Todos riram de Lula em 2002, quando Garotinho lhe aplicou uma pegadinha sobre a Cide, um imposto que ele achou que era uma autarquia. Guilherme Afif atrapalhou-se todo em 1989, quando Mário Covas lhe perguntou porque não aparecia na Câmara. Como adverte César Maia, 'debate ninguém ganha, mas quem escorregar feio pode se perder'.