Título: Batalha sobre ética esquenta debate que abre segundo turno
Autor: Vera Rosa, Ana Paula Scinocca
Fonte: O Estado de São Paulo, 08/10/2006, Nacional, p. A4
O debate inaugural do segundo turno, marcado para hoje na Rede Bandeirantes, promete temperatura elevada e discussão incisiva sobre ética, com acusações duras entre os dois adversários. Quem ouve o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o tucano Geraldo Alckmin e suas respectivas equipes falando sobre o encontro relembra os preparativos para uma luta de boxe.
'Alguém que tem atrás de si uma esteira de podridão deve ter muita moderação e cautela ao atirar no seu oponente', avisa o vice-presidente José Alencar. 'Vamos levar uma pasta com documentos, inclusive fotos, e esperamos não precisar usar. Mas se o presidente quiser debater ética, estaremos à vontade', ameaça o coordenador do programa de governo tucano, João Carlos Meirelles.
Dois dias depois da divulgação da primeira pesquisa eleitoral sobre o segundo turno, na qual o Datafolha aponta vantagem de Lula por 54% a 46% dos votos válidos, Alckmin vai para o confronto direto que tanto desejou no primeiro round. Para o petista, será uma chance de testar sua atual estratégia de tentar desconstruir o discurso dos tucanos baseado na defesa da ética. Lula pretende comparar seu governo com o do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, inclusive explorando as denúncias de corrupção contra o antecessor.
'Se querem discutir ética, vamos discutir', disse Lula, em comício em Petrolina anteontem. 'Nem PFL nem PSDB têm moral para dar lição de ética.' O presidente disse estar disposto a debater 'da forma mais civilizada possível', mas fez uma ressalva: 'A única coisa que peço é que não falem grosso comigo'. O tom de Lula, dizem assessores, deve ser 'ofensivo, mas sem perder a ternura'.
Faz parte da estratégia do PT lembrar o polêmico apoio do ex-governador Anthony Garotinho (PMDB) ao tucano. Dois dias depois de combinar com o PT a 'expulsão política' - uma via rápida, não prevista no estatuto do partido - de quatro filiados envolvidos no escândalo do dossiê Vedoin e acertar o afastamento de Ricardo Berzoini da presidência, Lula irá para o confronto disposto a não deixar pergunta sem resposta. Provocado, dirá que, enquanto governo e PT 'cortam na carne', os rivais jogam sujeira debaixo do tapete.
Lula foi preparado pelo seu marqueteiro, João Santana, que escalou uma tropa de choque para fazer perguntas duras, difíceis e constrangedoras, com a corrupção como grande tema. 'Nós não temos o que temer', avalia o governador eleito de Sergipe, Marcelo Déda. 'Lula vai debater política, economia, programas sociais e ética, olhando nos olhos do Alckmin. Não precisa ultrapassar o batente da porta nem cair na agressão, mas também não vai levar desaforo para casa.'
A munição que o candidato à reeleição carregará passa por dois palácios: o do Planalto, em Brasília, e o dos Bandeirantes, em São Paulo. Com um arsenal de números, o presidente promete exibir 'contradições' entre o discurso e a prática do PSDB na Presidência, com FHC (1995 a 2002), e no governo paulista, com o próprio Alckmin (2003 até março passado). As CPIs engavetadas pelos tucanos e a falta de segurança em São Paulo compõem o estoque de informações negativas que os petistas juntaram.
'A orientação para o segundo turno é discutir o futuro do País. Mas comparar é viver', disse o ministro-chefe das Relações Institucionais, Tarso Genro. Para tanto, o comitê da reeleição produziu uma extensa lista com 45 comparações entre o governo Lula e a gestão FHC. A escolha do 45 não foi por acaso: trata-se do número do PSDB. No pacote embrulhado pelos petistas, o presidente vence em todos os quesitos: da criação de empregos a programas sociais.
MUNIÇÃO NA PASTA
O arsenal que Alckmin preparou no seu córner é eclético. O tucano diz estar à espera de Lula para se confrontar nos campos em que o presidente quiser. Da comparação com o governo FHC à questão ética, passando pelo que Alckmin considera o tema central da campanha: as propostas para o desenvolvimento. A equipe de Alckmin afirma que o tucano manterá 'a classe'. Se for preciso, no entanto, baterá pesado.
'Nós estamos preparados para um debate em torno de idéias. Mas se ele quiser discutir ética, somos formados nessa escola', avisa João Carlos Meirelles. 'Ele escolhe o tema. Se quiser discutir cartão de crédito da Presidência ou qualquer outro escândalo de corrupção. Não há tema que nos preocupa', prossegue.
Na pasta de documentos que levará consigo, Alckmin terá em mãos cópia das fotos do R$ 1,75 milhão apreendido com petistas e destinado a pagar à família Vedoin para que relacionasse candidatos tucanos à máfia dos sanguessugas, que vendia ambulâncias superfaturas a prefeituras com verbas do orçamento federal.
O estilo pacificador de Alckmin vai na contramão da guerra armada pelos tucanos. Embora avesso à guerra, ele já avisou: 'Quero discutir o futuro, propostas que interessam ao Brasil. Mas deste adversário não espero flores. Não tenho medo de cara feia.'
Alckmin sabe subir o tom, como fez anteontem. 'Primeiro o presidente não sabia de nada. Agora fala coisas inverídicas. Onde fica a autoridade de chefe de Estado?', discursou, ao explicar que Lula lhe atribui projetos que na verdade não defende. 'O outro candidato não tem compromisso com a verdade e por isso está perdendo a credibilidade.'
O tucano não teve preparação específica para o debate. 'Ele tem estudado o País desde o início de sua trajetória política. Sabe o que fala. Só precisa descansar', comentou outro integrante da coordenação de campanha do PSDB. O marqueteiro Luiz Gonzalez, no entanto, passou as últimas horas em contato estreito com Alckmin. 'São ajustes finais', resume um assessor do ex-governador paulista.