Título: 'Com qualquer presidente, Brasil terá de cortar gastos'
Autor: Lu Aiko Otta, Renata Veríssimo
Fonte: O Estado de São Paulo, 25/10/2006, Economia, p. B1

'O Brasil não pode mais atingir superávit primário com aumento de imposto. Será necessário cortar gastos.' A afirmação é da diretora para ratings soberanos da agência de classificação de risco Standard & Poor's, Lisa Schineller, em relação ao próximo presidente brasileiro. 'Independentemente de quem seja eleito, a reforma da Previdência será chave neste esforço', disse Lisa no seminário para investidores cujo tema era 'Perspectiva de crédito após as eleições' na America Latina.

'A reforma da Previdência será central para que o próximo governo brasileiro, independentemente de quem seja eleito, reduza a rigidez fiscal do País', diz a analista. Lisa observa que 'não é novo aumentos de gastos no Brasil', mas afirma que é necessário um desenho melhor para que o País atravesse tempos de ambiente global de menor liquidez.

Para Lisa, o Brasil aproveitou a melhora do ambiente global, que ofereceu crescimento forte e ampla liquidez nos últimos anos, mas precisa estar preparado com menor rigidez fiscal para enfrentar períodos de deterioração do ambiente global.

ESTRUTURA FRACA

A analista observa que é necessário diminuir a rigidez fiscal em relação a gastos federais. 'O Brasil alcançou avanços importantes como a melhora da composição da dívida. Não há mais papéis denominados em dólares e apenas 22% estão ligados à inflação', exemplifica. 'No entanto, o Brasil tem uma estrutura fiscal mais fraca do que outros países que detêm classificação de risco BB e BBB.' Os ratings soberanos do Brasil, de acordo com a S&P, são BB em moeda estrangeira BB+ em moeda local, ambos com perspectiva estável.

A melhora do rating soberano brasileiro está condicionada ao comprometimento do próximo presidente da República - seja qual for o eleito - com a aprovação de reformas, diz Lisa Schineller. Segundo ela, a habilidade do próximo presidente na costura de uma coalizão política será central para aprovação de reformas importantes para o Pais.

A analista observa que as principais limitações do Brasil são em relação ao crescimento e na questão fiscal. 'E os desafios econômicos serão também desafiadores politicamente', prevê. Lisa diz que a atual classificação do Brasil na S&P é a maior já dada ao País e se baseia nas conquistas feitas no lado macroeconômico, com melhora dos fundamentos.

Mas para a melhora futura do rating, recomenda Lisa, 'será necessária uma política fiscal mais forte nos próximos quatro ou oito anos. 'Independentemente de quem seja o presidente, é necessária a consolidação fiscal.'

BONS SINAIS

Jane Eddy, diretora-gerente da Standard and Poor's, ressaltou as conquistas econômicas dos países da América Latina. Na abertura do seminário, a especialista observou que o ambiente global favorável, com ampla liquidez, foi fortemente aproveitado para melhoras na região.

'Ainda não é o suficiente, mas os sinais na região são bons e melhoras foram feitas', disse Jane ao fazer as declarações de boas-vindas no início do evento.