Título: 'Ir para o exterior é uma imposição'
Autor: Clayton Netz e Ricardo Galuppo
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/10/2006, Especial, p. H2
O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan, tem sido nos últimos anos um defensor firme de mudanças na legislação com a finalidade de desobstruir o caminho das empresas brasileiras interessadas em investir no exterior. E nesse campo ele pode falar com autoridade. Desde os anos 60, Furlan vê o mundo como um mercado a ser explorado e conhece os obstáculos e os tabus que, até bem pouco tempo atrás, praticamente confinavam as empresas do País em seu próprio território. Ao lado de seu avô, Atílio Fontana, ele andava pelo mundo na tentativa de abrir novas frentes para a empresa da família, a Sadia. Hoje, à frente de um dos poucos ministérios de importância do governo de Luiz Inácio Lula da Silva que, além de não mudar de mãos, teve uma atuação positiva nos últimos anos, ele acredita que muita coisa melhorou no que diz respeito à maneira como o Brasil passou a encarar a presença de suas empresas no mercado mundial. Mas ainda há muito o que evoluir até o País se tornar uma economia plenamente internacionalizada. Veja o que ele diz sobre:
Empresas brasileiras no mundo - Um projeto de inserção do Brasil no mundo desenvolvido passa pelo desenvolvimento de multinacionais brasileiras. Não existe país de Primeiro Mundo sem empresas de Primeiro Mundo. Há quinze anos, ninguém ouvia falar em multinacionais portuguesas. Ou espanholas. À parte as dificuldades que o Brasil ainda tem, eu acredito que a base que já se criou é promissora para que tenhamos mais uma dúzia de multinacionais consolidadas até o final da década.
A necessidade de internacionalização de algumas empresas - Crescer em direção ao exterior, em certos casos, é mais do que uma opção. É uma imposição. Veja o caso da Vale do Rio Doce. Pode-se dizer que, no Brasil, ela alcançou seu limite de crescimento - e seus gestores pouco podem fazer para conseguir no País a mesma expansão de ganhos que podem obter fora. A Vale é lucrativa. Como, então, usar esses recursos e continuar crescendo? O movimento, então, é em direção ao mercado internacional.
O apoio do governo - O presidente Lula acha que o governo deve apoiar a expansão internacional de nossas empresas. Existia uma linha de crédito do BNDES, que nunca havia sido regulamentada, destinada a apoiar as companhias brasileiras no exterior. Agora, ainda de forma tímida, essa linha está sendo utilizada. Essa atitude desmistifica a crença de que investir no exterior é sinônimo de exportar empregos que fazem falta ao País.
A razão de se apoiar a expansão internacional das empresas - É bom para o País. Pereniza a empresa e dá condições e musculatura para que ela consiga competir internacionalmente e, assim, manter os empregos que oferece no Brasil. Isso em lugar de simplesmente ficar dependente de uma economia que precisa da proteção do Estado a cada turbulência.
O que precisa ser feito - Temos de investir em capacitação. É um nó que precisamos remover. Não temos gente suficiente para sustentar um processo de internacionalização da economia. Temos falta de profissionais na área de transações internacionais. Outra lacuna é em engenharia e em matemática. Enquanto países como a China formam até 400 mil engenheiros por ano, nós estamos formando uma quantidade pequena de pessoas.
O problema da legislação - Há problemas de legislação e de política tributária que, muitas vezes, obrigam as companhias brasileiras a cuidar de seus negócios internacionais a partir de subsidiárias no exterior. Por que a administração não pode ser feita daqui? Por problemas legais e tributários. O poder público precisa entender que no século 21 não pode haver regras obsoletas como essa em segmentos tão importantes para a economia. O Brasil perde competitividade por não incorporar esses avanços.
Os tabus a serem quebrados - Apesar dos problemas de legislação na área legal, já demos passos importantes. A Medida Provisória 315, aprovada depois de longa discussão, é um exemplo. Ela permite que empresas com negócios internacionais tenham contas em moeda estrangeira. Há questões que são consideradas tabus no Brasil. O dólar é uma delas. O banqueiro Amador Aguiar dizia que, enquanto ele fosse o presidente, o Bradesco não teria agências no exterior porque esse negócio de mexer com dólar é muito perigoso. Ter conta na moeda que lhe for conveniente é fundamental para que uma empresa conquiste seu espaço no exterior.