Título: A mais globalizada das brasileiras
Autor: Amauri Segalla
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/10/2006, Especial, p. H6
A Embraer realizou recentemente uma façanha notável. Sem fazer barulho, tornou-se a terceira maior fabricante de aeronaves comerciais do mundo, atrás apenas da Boeing e da Airbus, e à frente de sua grande rival nos últimos anos, a canadense Bombardier. Como se sabe, a Embraer não fabrica parafusos - daí a importância de seu feito. Talvez nenhum outro setor da indústria exija um grau tão elevado de desenvolvimento tecnológico quanto a aviação e é justamente nesse universo que a gigante brasileira está inserida.
O salto da Embraer, segundo o estudo sobre as emergentes globais realizado pelo Boston Consulting Group (BCG), só foi possível a partir do momento em que a empresa foi capaz de transformar pesquisa e desenvolvimento em inovação global. Ou seja, em razão principalmente dos investimentos nessa área e da capacitação técnica e científica de seus profissionais, a Embraer passou a produzir aviões melhores e mais inovadores num segmento marcado por certa paralisia nos últimos anos. ¿A Embraer destacou-se justamente por seu dinamismo¿, diz Marcos Aguiar, sócio-diretor da BCG.
O caminho que levou a Embraer a conquistar esse posto foi marcado por sobressaltos. Às vésperas da privatização da empresa, em 1994, uma grave crise financeira ameaçava o seu futuro. Depois de um período de saneamento das contas, a Embraer partiu para o ataque. E fez isso ao apostar todas as fichas em tecnologia.
No ano 2000, criou o Centro de Realidade Virtual, um núcleo tecnológico que permitiu a redução do prazo de concepção de uma aeronave de 60 para 38 meses. Desde então, os aportes financeiros no setor de pesquisa e desenvolvimento dispararam. No ano passado, a Embraer desembolsou US$ 160 milhões nessa área, valor que deverá chegar a US$ 210 milhões em 2006. ¿Somos uma empresa que busca permanentemente a inovação¿, diz Frederico Curado, atual vice-presidente para o mercado de aviação comercial e que assumirá o cargo de presidente da Embraer a partir de abril de 2007.
Hoje, poucas empresas privadas brasileiras são tão globalizadas quanto a Embraer.Os aviões comerciais, militares e executivos fabricados pela companhia voam em mais de 60 países nos 5 continentes. Na lista de clientes, a Embraer contabiliza algumas das mais importantes companhias aéreas do mundo, entre elas Air France e British Airways. A Embraer é a terceira maior empresa exportadora do Brasil, atrás apenas da Petrobrás e da Vale.
Além de exportar suas aeronaves, a Embraer fincou estacas em território estrangeiro. Em 2002, firmou uma joint venture com a estatal AVIC II para a instalação de uma fábrica em Harbin, na China. O negócio foi fechado principalmente para atender a um provável aumento da demanda de companhias aéreas chinesas, como a China Southern e a Hainan Airlines. Esta última, por exemplo, acaba de encomendar 50 aviões ERJ-145 e 50 Embraer 190. Valor da fatura: US$ 2,7 bilhões, o que por si só justifica o investimento na unidade.
A atuação internacional da Embraer inclui subsidiárias, escritórios e centros de assistência técnica e de distribuição de peças nos Estados Unidos, Cingapura, Portugal e França. ¿Temos 2.500 funcionários no exterior, contingente que vem aumentando a cada ano¿, diz Curado. Em 2005, o mercado internacional foi responsável pela geração de 93% das receitas de R$ 9,1 bilhões da Embraer.
A própria fabricação de uma aeronave é um trabalho globalizado. Cerca de 60% dos componentes são importados. Num avião da família Embraer 170/190, por exemplo, os motores são americanos e parte da fuselagem é espanhola. Nos últimos anos, dezenas de fornecedores estrangeiros transferiram para o Brasil a produção de componentes destinados aos aviões da Embraer, da mesma forma que técnicos e engenheiros. A integração com a rede de fornecedores é outro fator que, segundo o estudo da BCG, vem influenciando no desempenho positivo da Embraer.
A fabricante de São José dos Campos tem metas ambiciosas. Quer se tornar, em 10 anos, líder na produção de jatos executivos. Segundo projeções da companhia, o segmento irá movimentar US$ 144 bilhões em negócios na próxima década, período em que devem ser entregues, em todo mundo, algo como 9.700 aparelhos. Cerca de 75% desse total irá para os Estados Unidos.
No ano passado, a Embraer anunciou o desenvolvimento do Phenom, seu novo modelo executivo, previsto para entrar em operação a partir de 2008, com investimentos de US$ 235 milhões. ¿A aviação executiva é um setor promissor e que talvez concentre as melhores oportunidades¿, diz Curado. Para firmar-se nesse nicho, a Embraer pretende diversificar sua base de clientes. Nos primeiros meses de 2006, anunciou encomendas feitas por companhias aéreas da Jordânia, Colômbia e China.
Segundo Curado, a Embraer merece o crédito de ter rompido um preconceito contra empresas brasileiras. ¿Não faz tanto tempo assim, as pessoas se assustavam quando descobriam que havia gente fabricando aviões no Brasil¿, diz. ¿Hoje, elas se convenceram de que somos capazes não só de fabricar mas acima de tudo produzir com qualidade.¿