Título: Paquistão ataca madrassa e mata 80
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Fonte: O Estado de São Paulo, 31/10/2006, Internacional, p. A4
Pelo menos quatro mísseis disparados ontem por helicópteros militares paquistaneses destruíram uma madrassa (escola corânica) na aldeia de Chingai, noroeste do país, matando 80 pessoas - na maioria, professores e alunos. Chingai, na área tribal do Paquistão, fica a menos de 5 quilômetros da fronteira com o Afeganistão. O governo paquistanês justificou o ataque alegando que o local era usado como campo de treinamento para combatentes Taleban e terroristas da rede Al-Qaeda que atuam nos territórios afegão e paquistanês.
A ofensiva de ontem foi a mais mortífera desferida contra uma área civil do Paquistão - e a primeira diretamente contra uma madrassa - desde 2001, quando os EUA lançaram o ataque que depôs o regime Taleban no Afeganistão, que dava abrigo ao líder da rede Al-Qaeda, Osama bin Laden.
O governo do presidente Pervez Musharraf está sob forte pressão do governo dos EUA para evitar que militantes islâmicos usem o território do Paquistão como base para lançamento de ataques no Afeganistão, onde a violência voltou a crescer nos últimos meses. Em janeiro, na mesma região, o Exército paquistanês realizou uma ofensiva terrestre que deixou um saldo de 13 mortos - civis, na maioria. Ontem, o governo americano negou qualquer envolvimento com a ação, que atribuiu exclusivamente a Islamabad.
Entre os mortos de ontem, de acordo com o governo paquistanês, está o líder religioso Liaquat Hussain, apontado como colaborador do egípcio Ayman al-Zawahiri, número 2 da rede Al-Qaeda. Outro líder religioso colaborador de Zawahiri, Faqir Mohamed, havia deixado a madrassa cerca de 30 minutos antes do ataque, segundo o serviço secreto paquistanês.
Mohamed voltou ao local horas mais tarde, para participar do velório das vítimas. 'Somos pacíficos, mas o governo atacou e matou nosso povo inocente por ordem dos EUA', discursou para uma multidão revoltada estimada em 10 mil pessoas.
Após o ataque, milhares de pessoas saíram às ruas em vários pontos da chamada Área Tribal - região semi-autônoma em território paquistanês -, queimando bandeiras americanas e gritando 'morte a Musharraf' (leia mais na página A5).
No momento do ataque, o presidente recebia o príncipe Charles, herdeiro do trono britânico, em Islamabad. Logo depois foi cancelada uma visita que o príncipe faria a Peshawar, a poucos quilômetros da fronteira com o Afeganistão.
A destruição da madrassa ocorreu após o fracasso de negociações entre o governo de Musharraf e chefes tribais locais, dos quais se exigia que não permitissem que a área fosse usada como refúgio de combatentes afegãos. O porta-voz do Exército, general Shaukat Sultan, mdisse que a escola era usada por militantes paquistaneses e de outras nacionalidades. 'Esses milicianos realizavam ações armadas não só no Afeganistão como também no território do Paquistão', declarou.
Segundo o porta-voz, o ataque foi decidido depois que os diretores da madrassa se recusaram a fechá-la, contrariando ordem do Exército emitida semanas antes. Suspeita-se que desde Bajur, cidade paquistanesa mais próxima de Chingai, parte grande número de combatentes, armas e provisões para os guerrilheiros do Afeganistão.