Título: Uma nova ameaça chinesa
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Fonte: O Estado de São Paulo, 03/10/2006, Notas e Informações, p. A3

China e Índia foram atrações especiais no Salão Internacional de Paris, uma das vitrinas mais tradicionais da indústria automobilística. A China já é o quarto maior produtor de veículos, abaixo de Estados Unidos, Japão e Alemanha, mas sua presença no mercado internacional ainda é modesta. A situação poderá ser muito diferente em poucos anos e esse é, certamente, o objetivo do governo chinês, como afirmou o representante oficial de Pequim, M. Han, na feira francesa: ¿Não vamos ficar só produzindo sapatos e roupas.¿ Quem tiver juízo aproveitará o pouco tempo disponível para se preparar. Isso vale para o Brasil. Antes de enfrentar a indústria chinesa no mercado de produtos, é preciso enfrentá-la, desde já, na disputa pela atenção e pelos capitais dos grandes grupos do setor, já em atividade na China e com planos de maiores investimentos nos próximos anos.

Os veículos chineses, segundo os especialistas, ainda não são competitivos em qualidade e perdem, de modo geral, na comparação com os brasileiros. Mas qualidade se adquire com a experiência e com a importação de tecnologia - e até a indústria instalada no Brasil poderá contribuir para isso, atendendo a interesses próprios ou das matrizes no exterior.

Com um gigantesco mercado interno à sua disposição, a indústria chinesa dispõe, para começar, de uma evidente vantagem de escala. Menos de dois em cada mil chineses têm automóvel. A média mundial é 90 por mil. Mas a China tem uma população de cerca de 1,3 bilhão de pessoas e uma classe média em rápida expansão, ansiosa por desfrutar dos padrões de consumo ocidentais. Com esse mercado interno e custos baixos, a indústria tem condições excepcionais para ingressar na competição internacional, se puder atender aos padrões mínimos de qualidade.

O impulso inicial já foi dado. Entre 2000 e 2005, a produção mundial de veículos aumentou 14%, chegando a 66,46 milhões. Nesse período, a produção brasileira cresceu 51,29% e alcançou 2,53 milhões de unidades. A fabricação chinesa deu um salto de 175% e totalizou no ano passado 5,71 milhões, praticamente encostando na alemã, 5,76 milhões de veículos.

Outros países da Ásia também conseguiram expandir sua produção em ritmo acelerado. Na Tailândia, o número de veículos fabricados passou de 325,89 mil para 1,12 milhão entre 2000 e 2005, aumentando 245,3% em cinco anos. O desempenho indiano foi menos espetacular, com um crescimento de 104,3% e uma fabricação de 1,63 milhão de unidades no ano passado, um número certamente expressivo.

Na Europa, nesse período, a produção ficou praticamente estagnada, passando de 20,27 milhões em 2000 para 20,80 milhões em 2005. A variação foi de apenas 2,5%. Nos Estados Unidos o desempenho foi pior: em cinco anos, o número de veículos fabricados diminuiu de 12,80 milhões para 11,98 milhões, com redução de 6,39%. Mas não houve perda, de fato, nem para as multinacionais americanas nem para as européias. Sua produção foi parcialmente transferida para economias emergentes com melhores condições de custo e de competitividade.

O Brasil pode ter absorvido parte dessa transferência, mas os países mais beneficiados pela redistribuição geográfica da produção foram obviamente os do Leste da Ásia.

Essa reorientação dos investimentos na indústria automobilística - e noutros segmentos da indústria manufatureira - está longe de terminar. Continua neste ano e continuará nos próximos, de acordo com os atrativos oferecidos pelos novos pólos de produção.

Esses investimentos continuarão a determinar, em boa parte, o crescimento econômico, a criação de empregos e a redução da pobreza nas áreas escolhidas pelos estrategistas. Essa é uma das características da economia globalizada.

Quem quiser simplesmente lutar contra a globalização perderá, de forma inapelável. Seja quem for o novo presidente brasileiro, o sucesso de seu governo estará condicionado, em boa parte, pelas políticas de atração de capitais e de tecnologia. Essas políticas deverão incluir investimentos bem planejados na educação e na infra-estrutura, assim como alterações importantes na infra-estrutura e na qualidade da gestão pública. Qualquer estratégia voluntarista será condenada ao fracasso.