Título: Método já visto como ferramenta fundamental
Autor: Giovana Girardi
Fonte: O Estado de São Paulo, 03/10/2006, Vida&, p. A8

A velocidade da premiação - oito anos da descoberta à entrega do Nobel para Andrew Fire e Craig Mello - é reflexo da disseminação rápida da interferência de RNA (RNAi) nos laboratórios médicos. Todo mundo que estuda novos tratamentos para doenças conhecidas, de diabete a aids, passando por colesterol e herpes, quer conhecer e usar o mecanismo.

De acordo com Bertil Fredholm, membro do comitê do Instituto Karolinska que escolhe os vencedores do prêmio, ela tem sido usada pelas empresas farmacêuticas como ¿ferramenta fundamental de pesquisa¿.

A maioria dos estudos ainda é feita em laboratório, quando muito em animais. Em 2003, a revista Science divulgou as primeiras demonstrações do potencial terapêutico da RNAi contra doenças em animais. Os imunologistas Judy Lieberman e Premlata Shankar, da Universidade Harvard, usaram o mecanismo para proteger ratos da hepatite. Em animais doentes, a estratégia reduziu a inflamação e permitiu a recuperação do fígado.

Testes clínicos em humanos são ainda poucos, mas começam a aparecer, à medida que aumenta o controle do processo. Segundo Fredholm, eles incluem testes para terapias contra viroses e doenças cardiovasculares metabólicas. Um dos mais avançados tem como alvo o gene que induz o crescimento de vasos sanguíneos no olhos, provocando degeneração macular.

Phillip Sharp, do Instituto Whitehead de Pesquisa Biomédica, em Massachusetts, EUA, vencedor de um Nobel em 1993, tem aplicado o RNAi em estratégias para matar o vírus da aids. Diversos laboratórios, como Novartis, Bristol-Myers Squibb, Monsanto, GlaxoSmithKline e Pfizer, licenciaram o RNAi para usar em pesquisas.

A empresa Alnylam Pharmaceuticals, de Massachusetts, usou RNAi para bloquear um gene envolvido no metabolismo do colesterol. Pelo trabalho, recebeu a permissão do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA para testar a tecnologia contra o H5N1, vírus que causa a gripe aviária.

Esses são apenas alguns exemplos. Jeremy Berg, presidente do Instituto Nacional de Ciências Médicas dos Estados Unidos, que financiou o trabalho de Fire e Mello, lembra que normalmente a ciência pede mais tempo entre a pesquisa básica e a aplicação. ¿Há testes clínicos para tratar quase tudo que se pode imaginar entre as doenças em que a superexpressão de genes particulares é importante.¿