Título: Policial que vazou fotos muda versão outra vez
Autor: Sônia Filgueiras
Fonte: O Estado de São Paulo, 03/10/2006, Especial, p. H4
O delegado da Polícia Federal Edmilson Pereira Bruno, responsável pela divulgação das fotos do dinheiro que seria usado pelo PT para comprar um dossiê contra os tucanos, disse ontem que não recebeu nada pelo que fez e só cumpriu o dever. 'Posso ser crucificado, execrado, mas cumpri o meu dever de delegado.'
Ontem, porém, mudou, mais uma vez, a versão sobre o caso e voltou a afirmar que um CD com as 23 imagens dos dólares e reais foi furtado de sua sala e, por isso, resolveu entregar as outras duas cópias à imprensa. Na quinta-feira, as fotos foram feitas pelo delegado e cinco peritos.Bruno usou a sua máquina particular.
Ele negou, veementemente, ter recebido propina pelo serviço. 'Eu não recebi nada, sou apartidário. Agi na minha função.' Agora, Bruno se diz vítima de perseguição e afirma que só divulgou as imagens por 'motivos verdadeiros'. Disse que teve medo de alguém usar o CD 'furtado' para vender ou fazer montagens e distribuir à imprensa.
O delegado ainda contou que acompanhou os peritos até a sala da Protege Transporte de Valores onde está o dinheiro, na quinta-feira, porque havia descoberto uma possível investigação paralela dentro da PF.
Segundo ele, um agente administrativo da PF o procurou para pegar o comprovante do depósito do dinheiro feito em seu nome para fazer a perícia. No dia seguinte, quinta-feira, descobriu que não havia nenhum ofício para o trabalho. Daí, entrou em contato com o banco e soube que dois policiais haviam tirado fotos.
Segundo a PF, houve, sim, um pedido de perícia em parte das notas, com fotos individuais, na quarta-feira, e outra, marcada para quinta-feira. Ontem, a PF abriu inquérito para apurar se houve quebra de sigilo funcional e um procedimento administrativo disciplinar contra Bruno. Ele já responde por outros dois processos de transgressão disciplinar.
'A sociedade tem direito de saber a verdade? Se tem, eu agi certo', disse o delegado, ontem à tarde. Bruno fala em Deus e acredita no acaso. Tanto que sempre se lembra do plantão entre os dias 14 e 15 do mês passado. Não deveria estar na madrugada de sexta-feira, quando prendeu Gedimar Passos e Valdebran Padilha no Hotel Íbis, em São Paulo, com o valor do dossiê. Seu plantão só começaria às 7 horas de sexta.
Bruno diz que não quer se tornar herói - o episódio é apontado como o responsável pelo segundo turno presidencial. 'Fiz para evitar uma armação.' Eleição para ele, é assunto quase tabu. Chega a revelar que em 2002 votou em Lula. E anteontem? 'Secreto.'
Ele nega também que tenha tentado conotação política com a divulgação das imagens. 'Eu fazendo ou não (a distribuição das fotos), haveria uma conotação política. Se divulgadas, seriam para prevalecer o PSDB; se não, para prevalecer o PT.'