Título: Institutos de pesquisa justificam erros expressivos
Autor: Marcelo de Moraes
Fonte: O Estado de São Paulo, 03/10/2006, Especial, p. H18
Diferenças expressivas entre números das pesquisas e a votação real, como as que ocorreram em algumas disputas eleitorais do domingo, 'tendem a se tornar cada vez mais comuns', advertiu ontem o diretor do instituto Datafolha, Mauro Paulino, 'porque a rotina das eleições está tornando o eleitor íntimo da urna'. Isso significa, diz o diretor, que ele deixará cada vez mais as decisões para a última hora, 'o que dificulta a tarefa de detectar os resultados reais'.
Essa pode ser, segundo ele, uma razão para as expressivas diferenças - mais que em eleições anteriores - entre as pesquisas e a votação apurada, no último domingo. Nenhum instituto captou a votação do presidenciável tucano Geraldo Alckmin (que chegou a 41,58%, contra previsões de 38%) nem bancou o segundo turno, que só apareceu como probabilidade na boca de urna do Ibope. Nos Estados, ninguém previu a vitória de Jaques Wagner (PT) na Bahia em primeiro turno nem a 'virada' de Yeda Crusius (PSDB) no Rio Grande do Sul, onde o governador Germano Rigotto caiu de líder para terceiro, ficando fora do segundo turno.
Para a direção do Ibope, a performance do instituto 'foi extremamente positiva', segundo o balanço divulgado ontem à noite, pois o instituto acertou (dentro das margens de erro) 95% das previsões de voto feitas para governos de Estado e 98% para o Senado, relativas a 426 candidatos, na última semana da campanha.
Segundo a diretora do instituto, Marcia Cavallari, às vezes as candidaturas 'crescem de forma surpreendente' e outras 'murcham' mas ela ressalta que, no caso da disputa presidencial, o desgaste do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que acabou provocando o segundo turno, foi 'bem registrado em nossa pesquisa de 24 de setembro'.
O Ibope deu vitória de 49% a 37% para Lula contra Geraldo Alckmin, no sábado, mas apontou empate técnico (50% a 50%) e um possível segundo turno na boca de urna da tarde do domingo. No caso da Bahia, o Ibope afirma também que a subida de Jaques Wagner (PT) e a queda do governador Paulo Souto (PFL) já estavam indicadas nos números divulgados.
A pesquisa do dia 30 de setembro dava 51% para Souto e já um grande crescimento de Wagner para 41% das intenções de voto. Na boca de urna, no fim da tarde do domingo, a inversão já estava detectada: 'O Ibope foi até o final do processo e detectou a virada na pesquisa de boca-de-urna', disse Márcia Cavallari. Wagner estava com 49% e Souto caía para 43%.
SURPRESAS
'O Datafolha tem sido cobrado por pesquisas que não fez', adverte Mauro Paulino, citando justamente os casos da Bahia e do Rio Grande do Sul, onde as previsões são de outros institutos. Mas admite que o seu divulgou, na véspera das eleições, alguns números que não bateram. 'Tivemos surpresas em dois casos: no Rio, para o Senado, e no Paraná, para governador.' No Rio, o Datafolha dava vantagem à candidata Jandira Feghali e quem levou foi Francisco Dornelles, do PP. No Paraná, os números do instituto já apontavam para segundo turno, mas a votação atribuída a Roberto Requião ainda estava alta em relação ao que ele de fato teve.
Paulino faz também duas ponderações. Primeiro, que o calor da disputa presidencial, na última semana, devido ao caso do dossiê Vedoin, 'roubou a cena' e os eleitores prestaram menos atenção ainda às outras campanhas, para governos estaduais e para o Legislativo.
Segundo, ele ressalta que 'às vezes se dá aos índices captados uma importância maior do que permitem os limites da estatística'. Esse fenômeno 'tem sido percebido na mídia e nas próprias assessorias dos candidatos, que tendem a orientar suas decisões a partir dessas intenções do eleitorado'.
O grande exemplo disso, para ele, é o caso de Alckmin. 'Se olharmos bem a seqüência de pesquisas, constataremos que o candidato tucano vinha crescendo num ritmo de praticamente dois pontos por dia na semana final', diz ele. Os números do Datafolha apontaram dois pontos a mais (para Alckmin) entre 19 e 22 de setembro, mais um ponto até dia 27, outros três de 27 a 29.
'Dizíamos também que era preciso ver o quadro como uma tendência.' Nas contas dele, a pesquisa parou em 38% na sexta-feira, e era possível imaginar mais uns 2 pontos até domingo - até porque, nos últimos dois dias, o presidente Lula começou a registrar uma pequena queda. Paulino adverte que 'às vezes é preciso ler os números com sensibilidade analítica, não apenas como números estratificados'.