Título: Lula planeja reunião com Executiva para contornar rebelião no PMDB
Autor: Cida Fontes, Christiane Samarco
Fonte: O Estado de São Paulo, 16/11/2006, Nacional, p. A4
Preocupado com o andamento das negociações com o PMDB, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu chamar ao Planalto o presidente nacional da legenda, deputado Michel Temer (SP), para tratar da participação do partido no segundo mandato. Para que o encontro não fique restrito a Temer, com quem Lula está rompido há mais de um ano, a idéia é fazer reunião com toda a Executiva Nacional, abrindo a negociação institucional com o partido ao mesmo tempo em que o presidente amplia sua interlocução com os peemedebistas.
Lula já foi alertado de que há uma rebelião em curso na bancada peemedebista na Câmara, que não aceita que a interlocução passe apenas pelo trio composto pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), pelo senador José Sarney (AP) e pelo deputado Jader Barbalho (PA).
Na mesma linha de Temer, que na quarta-feira fez um protesto público contra 'as conversas de natureza pessoal, em detrimento da relação institucional com o PMDB', um grupo expressivo da bancada federal sente-se alijado da negociação com o Planalto e articula um movimento para desautorizar a atuação do trio. A revolta deve-se não só ao monopólio da interlocução, mas à predileção de Lula por peemedebistas que são considerados mais da cota pessoal do presidente do que do partido - como Nelson Jobim ou Roseana Sarney, que pode se filiar ao PMDB.
'Sugeri ao presidente que busque trazer todo mundo, oferecendo a todos condições de conversar com dignidade', relata o deputado Geddel Vieira Lima, salientando que todos os grupos estão representados na Executiva. Ele, o governador eleito da Bahia, Jaques Wagner (PT), e o ministro Tarso Genro acreditam que no encontro da próxima semana Lula deverá apresentar aos peemedebistas as principais medidas que pretende submeter ao Congresso no segundo mandato.
Só a partir dessa iniciativa Lula começará a definir o espaço do PMDB no governo. No momento, a sigla enfrenta a divisão interna e ainda está em guerra aberta com o PT por cargos na Esplanada dos Ministérios. Lula entra no circuito para abortar a rebelião dos deputados, que só serviria para dividir mais o partido e dificultar a montagem da coalizão.
Temer também levará ao Planalto uma posição dos sete governadores peemedebistas eleitos, que se reúnem amanhã, em Florianópolis. Nessa frente, também será difícil que haja consenso (leia texto abaixo).
Os deputados excluídos das negociações dizem que, embora seja candidato a líder na Câmara, Jader Barbalho não fala em nome da bancada. Eles também suspeitam de que estaria no forno um acordo para facilitar a reeleição de Renan, à custa da bancada da Câmara. Pelo acordo, os deputados abririam mão do direito de indicar o futuro presidente da Casa, prerrogativa que tradicionalmente cabe ao maior partido - pelo número de eleitos em outubro, o PMDB -, favorecendo por tabela a reeleição de Aldo Rebelo (PC do B-SP), que é vista com bons olhos pelo Planalto.
A negociação ainda envolveria o PT. O partido de Lula, que também reivindica o comando da Câmara, seria contemplado com mais um cargo no ministério. Nome mais forte para substituir Aldo, o líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), que é médico, seria indicado para a Saúde. Além disso, o PT também ficaria com a vaga de ministro do Tribunal de Contas da União hoje disputada por oito partidos.
Nesse contexto, as declarações de anteontem de Jaques Wagner devem ser vistas como 'freio de arrumação'. O governador eleito, interlocutor freqüente de Lula, disse que o PMDB deve manter o tamanho atual no ministério no próximo mandato - o que foi entendido como sinal para que o PMDB contenha sua ambição.