Título: Na festa do muito obrigado, só lamentos
Autor: Silvia Amorim
Fonte: O Estado de São Paulo, 30/10/2006, Nacional, p. H17
A festa do muito obrigado, promovida pelo PSDB, foi em clima de inconformismo e indignação. Nas rodinhas de conversa, as perguntas se repetiram. ¿Como pode? Foi sacanagem¿, lamentou o secretário de Estado da Casa Civil, Rubens Lara, ao pé do ouvido de um colega. Do outro lado do salão locado para o evento, uma militante anônima, inconformada, dizia: ¿É inacreditável. O Alckmin é de uma integridade.¿
Até uma hora antes de Geraldo Alckmin chegar para fazer seu primeiro agradecimento público depois da derrota, o espaço, que ficou lotado pela militância no primeiro turno na festa da vitória do governador eleito de São Paulo, José Serra, estava praticamente vazio - cerca de 50 pessoas ante as quase mil de 1º de outubro.
Uma banda tentou animar os convidados, em sua maioria militantes dos diretórios municipais. Tocou de tudo, de Beatles a Fábio Jr., mas não conseguiu empolgar. A pista ficou vazia por muito tempo, apesar do apelo do locutor para os presentes participarem da confraternização, ¿apesar dos pesares¿. Para abreviar a espera de quase três horas por um discurso de Alckmin - as pessoas começaram a chegar por volta das 18h30 -, foram servidos água, refrigerante e amendoim.
Apesar da música, o lugar mais disputado foi a frente da televisão. As pessoas se concentravam para conferir os resultados da votação nos Estados. O placar de Minas Gerais - Lula teve 65,19% dos votos e Alckmin, 34,81% - foi o mais lamentado. A esperança tucana era que o governador reeleito, Aécio Neves (PSDB), alavancasse o desempenho de Alckmin.
O local só começou a encher depois que Alckmin confirmou presença. Com a chegada das lideranças tucanas, as conversas mudaram. Nas rodinhas, a lamentação foi substituída por um balanço maduro sobre os erros da campanha. Foi quase unânime a conclusão de que um dos fatores decisivos da derrota foi o partido não ter conseguido popularizar o debate contra o presidente reeleito.
O ex-presidente estadual do PSDB e deputado federal eleito, Edson Aparecido, já sinalizava ontem os rumos que defende que o partido precisa tomar para se apresentar mais forte nas próximas eleições. ¿Temos que nos expandir para os grandes centros além de São Paulo, como Recife e Rio, e nos organizarmos como um partido de massas. Ou seremos sempre um partido de grandes idéia, bons administradores, mas sempre faltará alguma coisa, penetração nas comunidades.¿
Ter se deixado pautar pela campanha do adversário foi outra falha apontada pelos tucanos. ¿Erramos ao não pautar o debate eleitoral. Ficamos o tempo todo sendo pautado pelo outro lado. Faltou iniciativa¿, considerou o ex-ministro da Educação e deputado federal eleito, Paulo Renato.
A necessidade de usar o período pós-eleitoral para uma reavaliação profunda dos rumos político e programático do partido é consenso.
Por outro lado, era ouvido em todos os cantos do salão que Alckmin não saiu derrotado. ¿Ele se consolidou como uma grande liderança política no País. Está credenciado a disputar qualquer cargo para o Executivo¿, disse o deputado Arnaldo Madeira.
Outra pergunta, só que ainda sem resposta, que se ouviu de todos os lados era sobre o futuro de Alckmin. Vai disputar a Prefeitura de São Paulo ou será presidente nacional do PSDB? Ninguém se arriscou a fazer uma aposta.
Também era proibido nas rodinhas apontar eventuais culpados pela derrota. ¿A derrota não é de um homem só. Ela é do partido¿, contemporizou Madeira.
Alckmin foi o último a chegar. Antes dele, Serra havia entrado pela ala reservada para as autoridades. Alckmin, porém, preferiu chegar até o palco caminhando por entre os convidados. Foi bastante cumprimentado e aplaudido. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi ausência notada.