Título: Doente, Fidel é festejado nos 80 anos
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Fonte: O Estado de São Paulo, 13/08/2006, Internacional, p. A20

Após quase duas semanas de inquietante silêncio oficial sobre a saúde de Fidel Castro, organismos do regime cubano celebram hoje o 80º aniversário do líder. As grandes festividades previstas pela Fundação Guayasamín, de Havana, não se realizarão a pedido do próprio Fidel. No dia 31, ao anunciar que se submeteria a uma delicada cirurgia intestinal e passava o poder ao irmão, Raúl, ele pediu que as cerimônias fossem transferidas para o dia 2 de dezembro - data dos 50 anos de seu retorno a Cuba, a bordo do iate Granma.

Mas o aniversário de Fidel não passará em branco. A União dos Jovens Comunistas (UJC) daria início à celebração ontem à noite, com o concerto Cantata por la Patria. Para o espetáculo, foi montado um palco na frente do Escritório de Interesses Americanos, em Havana. "Neste momento histórico, destacados expoentes da cultura cubana se unirão nesta cantata para expressar a voz unida e firme do povo em torno da revolução", afirmou o jornal Juventud Rebelde.

Cerca de 100 mil trabalhadores da indústria açucareira também realizarão uma jornada de "trabalho voluntário" em atividades do setor em homenagem a Fidel, segundo declarou o ministro Ulises Rosales del Toro. Mobilizações produtivas sempre marcaram os aniversários anteriores do líder cubano - normalmente avesso a celebrações recreativas.

Paralelamente, o cantor e compositor cubano Pablo Milanés disse que dedicará a Fidel suas apresentações do fim de semana na Cidade do México. "Em todo o país, haverá apresentações de shows de rap, trovadores e cantores de bolero em homenagem ao Comandante", declarou o ministro da Cultura, Abel Prieto.

Os cubanos esperam que o governo aproveite a data para emitir alguma informação sobre o estado de saúde de Fidel. Existe ainda a expectativa de que Raúl faça sua primeira aparição pública desde que assumiu o poder - "temporariamente", de acordo com a versão oficial.

"Fidel, 80 mais!" é o lema das celebrações, espalhado em vários outdoors pela ilha, ao lado dos tradicionais slogans "pátria ou morte!" e "socialismo ou morte!"

"Estamos ansiosos para ver de novo Fidel", disse a enfermeira Marlene Cassola, de 44 anos, que vive em Havana. "Mas sabemos que ele está se recuperando e temos de ter paciência."

Nos últimos dias, as únicas e pouco precisas informações sobre a saúde de Fidel - consideradas por ele mesmo "segredo de Estado" - provêm de comentários de membros do regime e dão conta de que sua recuperação tem sido "satisfatória". Na quinta-feira, seu maior aliado externo, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, disse que Fidel "está em uma batalha por sua vida", dando a entender, pela primeira vez, que ele corre sério risco de morte.

Na sexta-feira, durante um ato público da Organização Continental Latino-Americana e Caribenha de Estudantes (Oclae), o dirigente do Partido Comunista Cubano Fernando Remírez de Estenoz fez uma nova chamada à unidade da população de Cuba. "A poucas horas do 13 de agosto (aniversário de Fidel), nosso povo apóia o comandante-chefe e renova seu desejo de uma recuperação plena", discursou. "Sob a direção segura do partido e do querido Raúl, estamos seguros de que a vitória continuará sempre sendo nossa."