Título: Ortega volta ao poder na Nicarágua
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Fonte: O Estado de São Paulo, 07/11/2006, Internacional, p. A14

Daniel Ortega, candidato da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) à presidência, personagem central dos últimos anos da Guerra Fria, está voltando ao governo da Nicarágua, de acordo com a contagem rápida da ONG Ética e Transparência. Segundo o organismo, Ortega (que exerceu o poder no país de 1979 a 1990) obteve 38,49% dos votos na eleição de domingo, contra 29,52% do direitista Eduardo Montealegre, banqueiro formado em Harvard e candidato preferido por Washington. Essa votação - superior a 35% e com mais de 5 pontos porcentuais de diferença em relação ao segundo colocado - dá a vitória ao sandinista já no primeiro turno. A apuração oficial, com 61,8% dos votos contados até ontem à noite, dá 38,59% para Ortega e 30,94% para Montealegre, da Aliança Liberal Nicaragüense (ALN).

O sandinismo que retorna ao poder em Manágua agora, no entanto, é um movimento totalmente desfigurado em relação à guerrilha que, liderada por Ortega, derrubou o ditador Anastasio Somoza em 1979. Ao longo dos anos, a FSLN se desintegrou por causa de divisões internas. Hoje, a frente incomoda mais os EUA por sua aproximação com o presidente venezuelano, Hugo Chávez, e seu perfil populista do que por sua ideologia marxista e suas ligações com movimentos guerrilheiros nos países vizinhos, como El Salvador e Guatemala.

Os rivais de Ortega na eleição denunciaram a ingerência de Chávez. Segundo eles, o governo venezuelano enviou carregamentos de gasolina e óleo diesel a preços mais baixos para as cidades governadas por prefeitos da FSLN. Mas, ciente do efeito eleitoral negativo que o apoio de Chávez provocou nas eleições do Peru, México e no primeiro turno do Equador - nas quais os candidatos apoiados pelo venezuelano sofreram mais rejeição -, Ortega evitou menções mais claras a ele.

Tanto a apuração paralela da Ética e Transparência quanto a contagem parcial oficial dão o terceiro lugar da eleição de domingo para o produtor rural José Rizo e o quarto para o candidato do Movimento Renovador Sandinista (MRS, uma cisão da FSLN), Edmundo Jarquín.

Jarquín denunciou irregularidades durante a eleição, como atrasos na instalação das mesas e propaganda eleitoral ilegal em favor da FSLN no dia da votação. O porta-voz do Departamento de Estado americano, Tom Casey, disse ontem que Washington só se manifestará sobre a eleição após o término da contagem oficial. E, diante das denúncias de Jarquín, acrescentou que aguardará os relatórios dos observadores internacionais sobre a limpeza das eleições.

O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza, declarou que nenhuma irregularidade significativa foi constatada pelos observadores. O ex-presidente americano, Jimmy Carter, também avalizou o resultado da eleição.