Título: Heloísa diz que não apoiará ninguém
Autor: Roldão Arruda, Denise Crispim Marin
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/10/2006, Especial, p. H8
A senadora Heloísa Helena disse ontem à noite que o PSOL não apoiará nenhum dos dois candidatos no segundo turno das eleições para a Presidência da República. 'Seria uma desmoralização para o PSOL rasgar 12 anos de história de resistência, de confronto político contra o projeto neoliberal representado pelo PSDB e de confronto com a gangue partidária em que se transformou o governo Lula', afirmou a candidata derrotada. Ela insistiu, no entanto, que os apoiadores de seu partido são homens e mulheres livres, com capacidade para definir em quem votar. Quanto à possibilidade de partidários do PSOL fazerem a pregação do voto nulo, ela disse que se trata apenas de um detalhe. O senador Cristovão Buarque (PDTDF), por sua vez, reiterou na noite de ontem que vai posicionarse claramente para o segundo turno das eleições presidenciais, no próximo dia 29. Porém, manteve em suspenso sua decisão pessoal. Conforme assinalou, a posição do PDT deverá ser tomada na próxima semana, em uma reunião da sua direção, na qual o senador terá apenas um único voto. 'Claro que vou (me posicionar). Não há nenhum constrangimento', afirmou. 'O primeiro turno é para escolher aquele que consideramos o melhor. O segundo turno é para escolher o menos mau. A gente vai escolher aquele que traz uma proposta mais próxima da nossa.'
Heloísa Helena chegou para votar às 7h30 ao bairro de Riacho Doce, em Maceió, onde morou quando era casada com Stanley Carvalho, pai de seus filhos Ian e Sacha. Mas não foi diretamente para a longa fila de eleitores que àquela hora já estava formada diante do grupo escolar. Passou antes pela casa de uma antiga amiga, no outro lado da rua.
Enquanto conversava, dois primos dela entraram na fila para guardar lugar e a chamaram pelo celular quando já estavam na porta da sala de votação. A senadora votou às 8h45 na 185ª Seção Eleitoral de Maceió. Na sua primeira entrevista do dia, enquanto aguardava a vez de entrar na sala de votação, no Grupo Escolar Antonio Vasco, no bairro Riacho Doce, disse que terminava a campanha de cabeça erguida e que sua maior esperança nas eleições deste ano era 'não ver a vitória do banditismo político, da roubalheira e da corrupção'.
Com a afilhada Clara Ramos, de seis anos, no colo, a candidata deixou claro que sua principal preocupação era a derrota do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a quem acusa de estar à frente de uma organização criminosa travestida de partido político. Ela também responsabilizou o presidente petista pela vitória de Fernando Collor de Mello, do PRTB, para o Senado.
A senadora considerou positivo para o PSOL o resultado da eleição, pois, segundo ela, se trata de um partido novo, fundado há apenas dois anos.
Na opinião da senadora, os eleitores de Alagoas votaram no ex-presidente sob o efeito da onda de corrupção que teria tomado conta do governo Lula: 'Na periferia de Maceió, muitas pessoas me diziam que o Lula roubou mais do que o Collor e continuou no Palácio do Planalto. Talvez o povo de Alagoas tenha feito um protesto.'
Depois de votar, Heloísa embarcou com os dois filhos e um motorista num Ford Fiesta e saiu dirigindo na direção de Palmeira dos Índios. Explicou que ia levar Ian, de 20 anos, para votar. Também pretendia descansar e rever parentes na cidade onde passou parte da infância e a adolescência. Em Palmeira dos Índios, a 130 quilômetros de Maceió, Heloísa Helena passou o dia na casa do irmão Hélio, sem conversar com eleitores, como fez na época de sua eleição para senadora em 1998, para não constrangê-los, segundo suas explicações. Por volta da meia noite, quando soube do resultado das apurações, ela abriu o portão e conversou durante alguns minutos com os jornalistas para explicar a posição de seu partido.
UMA NOTA SÓ
Depois de votar no Colégio Leonardo da Vinci, Asa Norte, Cristovam Buarque passou o dia em Brasília. De antemão, impôs quatro condições ao candidato que receberá o apoio do PDT: 'o compromisso total com a Democracia, sem romper nenhuma de suas regras; acabar com a reeleição para cargos do Executivo; colocar a educação como prioridade; defender os direitos trabalhistas.' Cristovam mostrou-se otimista com relação à possibilidade de o PDT superar os limites da chamada cláusula de barreira - os limites de votação para que tenha direito a receber recursos do fundo partidário, possa contar com direito a propaganda gratuita na televisão e consiga participar de comissões do Congresso.
Cristovam chegou à sede do PDT, em Brasília, no início da noite, quando já havia iniciado a apuração dos resultados eleitorais pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Enquanto militantes se serviam de cachorroquente e salgadinhos e se confraternizavam, Cristovam e vários pedetistas acompanhavam cuidadosamente a evolução dos números. 'Lula vai perder por causa dos meus 2%', brincou, ao ouvir os primeiros dados da apuração pela televisão. Quando a apuração para presidente chegou a 80% dos votos, Cristovam foi preciso na avaliação: 'Lula não vai levar no primeiro turno porque os votos que faltam apurar são os de São Paulo.'
Hoje, às 14 horas, Cristovam deverá subir na tribuna do Senador Federal para repetir o seu discurso de uma nota só. 'Eleitoralmente, claro que perdi', declarou. 'Mas, politicamente, saí do menor colégio eleitoral e consegui fazer uma campanha nacional e fincar a minha bandeira da revolução doce. Em vez de fuzil, o lápis.'