Título: Não faltam rebeldes para grupo xiita
Autor: Fawaz A. Gerges
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/08/2006, Internacional, p. A8

Agora que os canhões silenciaram no Líbano e a parte difícil da manutenção da paz começou, é hora de Israel e os EUA reconsiderarem sua visão do Hezbollah. O Hezbollah, ou Partido de Deus, não pode ser eliminado militarmente, e o Líbano não é apenas mais uma frente na guerra ao terror, como tende a acreditar o presidente dos EUA, George W. Bush.

Em primeiro lugar, o Hezbollah não é apenas uma milícia ou um exército convencional, e sim um movimento social e político profundamente enraizado em sua sociedade, com uma grande base de apoio na comunidade xiita libanesa, que representa cerca de 40% dos 4 milhões de habitantes do Líbano. O Hezbollah organiza um sistema de assistência social que oferece escolas, clínicas, creches e empregos para centenas de milhares de xiitas pobres.

No que é igualmente importante, o Hezbollah oferece à comunidade xiita, historicamente desfavorecida e marginalizada no Líbano, um senso de identidade e uma fonte de orgulho. Os ataques militares de Israel contra xiitas vão aprofundar seus sentimentos de vitimização e voltá-los - ainda mais - contra Israel e o Ocidente.

Os xiitas moderados já foram críticos veementes do extremismo do Hezbollah. Em conversas que tive em Beirute nas últimas duas semanas, fiquei surpreso com sua defesa da organização radical contra os críticos. ¿Esta guerra é contra todos os xiitas, não só contra o Hezbollah¿, disse-me uma jornalista xiita progressista.

Em segundo lugar, o Hezbollah é retratado falsamente por Israel e seus amigos nos EUA como um dente podre que pode ser facilmente arrancado - uma organização terrorista que precisa ser eliminada. Na verdade, o Hezbollah é um ator político fundamental no cenário libanês. Mais de um milhão de homens e mulheres votam em seus candidatos em eleições. A organização radical é parte da paisagem política libanesa e existe um diálogo real para a integração total do aparato paramilitar do Hezbollah ao Exército e a eliminação de seu status duplo.

O Hezbollah tem dois ministros no gabinete, 14 das 128 cadeiras do Parlamento e uma grande base de apoio no mundo muçulmano.

Em terceiro lugar, desde o início dos anos 80, o Hezbollah demonstra sua força no campo de batalha contra o poderio militar israelense. Em 2000, o grupo forçou Israel a se retirar, sob fogo, de uma pequena faixa de território no sul do Líbano. Desta vez, depois de mais de três semanas de confronto, o Hezbollah se mostrou resistente.

As causas primordiais do confronto entre Israel e o Hezbollah repousam na falta de solução do conflito árabe-israelense e na paralisia do processo de paz. É irreal Israel acreditar que pode destruir o grupo de uma vez por todas.

Os líderes do Hezbollah cometeram um erro de cálculo monstruoso ao seqüestrar dois soldados israelenses. Eles esperavam, no máximo, alguns dias de escaramuças armadas e bombardeios aéreos no sul do Líbano, e não a guerra total lançada por Israel. O sentimento dominante era de que o Hezbollah tinha poder demais no Líbano e Israel não se atreveria a combater de frente a organização revolucionária pró-iraniana. Líderes importantes do Hezbollah reconheceram depois que não esperavam que Israel lançasse uma guerra total, segundo o vice-chefe do departamento político do grupo, Mahmoud Qomati.

Na terceira semana, os líderes israelenses já haviam reduzido as exigências, reconhecendo o custo de esperar demais da luta. Falando na emissora de TV do Hezbollah, Al-Manar, o líder do grupo, Hassan Nasrallah, tranqüilizou seus seguidores de que Israel não havia atingido ¿um único alvo militar¿ e insistiu em que ele não aceitaria um acordo ¿humilhante¿. Nasrallah, com seu tradicional lenço negro na cabeça, foi duro na advertência a Israel: ¿Se vocês bombardearem Beirute, nós bombardearemos sua capital, Tel-Aviv.¿ Mas também acenou com um ramo de oliveira: ¿A qualquer momento que vocês decidirem parar sua agressão a nossas vilas e cidades e a nossos civis, não dispararemos foguetes em qualquer cidade ou assentamento israelense.¿ Em termos de estrutura, organização e metas, o Hezbollah lembra o Exército Republicano Irlandês. Além disso, o grupo tem uma penetração social viável e não teme a exaustão de sua fonte de recrutamento.

A verdade é que se Israel conseguir eliminar a atual geração de combatentes do Hezbollah, outra geração tomaria o seu lugar, e mais militarizada que a atual. Não faltam homens dispostos a entrar na luta contra Israel. ¿Daremos nossa vida pelo Sayyed (Nasrallah) em qualquer momento¿ é um refrão ouvido com freqüência de adolescentes xiitas no Líbano.

O deslocamento de um milhão de libaneses, na maioria xiitas, e a morte de mais de 900 civis depois dos ataques israelenses garantem anos de um fluxo interminável de recrutas para o Hezbollah. Nem os EUA nem Israel deram uma atenção adequada a isso. Outro mal-entendido é que esta é uma guerra por procuração contra Irã e Síria. Isto é uma bobagem. Embora armado e financiado por Irã e Síria, o Hezbollah ficou mais autônomo depois da retirada de Israel do Líbano em 2000. O grupo, parcialmente integrado no cenário político libanês, poderia facilmente gerar recursos financeiros no próprio país para manter seus serviços sociais.

O carismático líder Nasrallah não só foi bem-sucedido numa agenda interna no Líbano, como transformou o Hezbollah em uma nova vanguarda de resistência armada a Israel e aos EUA aos olhos de dezenas de milhões de árabes e muçulmanos.

Uma campanha militar israelense prolongada só enfraqueceria o governo libanês democraticamente eleito. Em vez de enfraquecer o Hezbollah, o massacre de Israel aumentou a popularidade do grupo em todo o mundo muçulmano.

Uma pesquisa nacional de opinião realizada no Líbano há duas semanas pelo Centro de Pesquisa e Informação de Beirute mostrou um forte aumento no apoio ao Hezbollah desde a invasão israelense: 87% dos questionados apoiaram a resposta militar do grupo, incluindo 89% de sunitas e 80% de cristãos. Há cinco meses, apenas 58% apoiavam o direito do Hezbollah de permanecer armado. Também 89% dos que responderam consideram que os EUA não são um interlocutor honesto, que não reagem positivamente a necessidades e preocupações do Líbano.

A carnificina no Líbano enfraquece os elementos pró-Ocidente em toda a região. ¿O povo árabe vê o Hezbollah como um herói porque ele está combatendo a agressão de Israel¿, disse o rei Abdala II da Jordânia, um aliado-chave dos EUA que inicialmente culpava o Hezbollah pela crise.

O cessar-fogo veio justo a tempo de impedir o colapso do governo libanês, para não falar no sofrimento do povo. O caminho para a paz não é a derrota militar do Hezbollah - tarefa impossível - mas costurar um tratado de paz árabe-israelense abrangente e permitir que a comunidade xiita se integre nas instituições libanesas. Enquanto um grande segmento dessa comunidade permanecer marginalizado no Líbano, a visão radical do grupo prevalecerá.

Um consenso está surgindo no interior da classe política libanesa de que o status quo não é mais viável; o governo legítimo deve ser o único agente com o monopólio do uso da força. Há pouco, Nasrallah sugeriu que a recente batalha foi a última que o Hezbollah lutaria, sinalizando que a liderança de sua organização poderia estar disposta a aceitar um acordo político que atendesse seus interesses vitais. Nasrallah também aceitou o cessar-fogo patrocinado pela ONU com reservas. Em um pronunciamento na televisão, ele disse que sua organização cumpriria o cessar-fogo desde que as tropas israelenses parassem de atacar e se retirassem do sul do Líbano.

Em vez de depreciar indevidamente a organização revolucionária Hezbollah como ¿terrorista¿ e se apoiar exclusivamente na força militar, Israel e os EUA precisam voltar às negociações centradas numa compreensão matizada da força que estão determinados a destruir. Isso requer um esforço concertado da comunidade internacional, incluindo os EUA, para ajudar Israel e seus vizinhos árabes a alcançarem um acordo histórico baseado em justiça e segurança para todos.