Título: Projeções apontam vitória de Correa
Autor: Roberto Lameirinhas
Fonte: O Estado de São Paulo, 27/11/2006, Internacional, p. A10
A apuração paralela da ONG independente Participação Cidadã, baseada em cifras das atas eleitorais, indicou ontem que o candidato da Aliança País (AP), Rafael Correa - amigo pessoal do presidente venezuelano, Hugo Chávez - obteve 56,4% dos votos válidos do segundo turno da eleição presidencial equatoriana. Seu rival, o homem mais rico do país e candidato do Partido Renovador Institucional de Ação Nacional (Prian), Álvaro Noboa, ficou com 43,6%. Os números são iguais ao da apuração paralela da TV Teleamazonas. A margem de erro dessas contagens paralelas é inferior a 1 ponto porcentual. Segundo boca-de-urna da Cedatos, Correa obteve 56,8 e Noboa, 43,2%.
Das quatro pesquisas de boca-de-urna realizadas ontem, só uma, a da Consultar, que trabalha exclusivamente para Noboa, apresentou um resultado diferente dos números da contagem paralela. Segundo esse instituto, o candidato do Prian havia vencido com 42% dos votos, enquanto o esquerdista teria 36%. Os votos anulados e em branco somariam 22%, muito acima da média histórica das eleições equatorianas, em torno dos 12%.
Com base nesses números, Noboa deu entrevista no Canal 10, declarando-se vencedor e contestando os números das demais sondagens de boca-de-urna que davam em torno de 14 pontos porcentuais de vantagem para Correa. 'Eu já ganhei', disse. 'É só esperar os resultados oficiais que veremos isso.' Ele disse que pode pedir a contagem voto a voto. O primeiro boletim oficial do Tribunal Supremo Eleitoral (TSE) era esperado para as 23 horas locais (2 horas de hoje em Brasília) e o resultado final oficial da eleição deve ser divulgado na quarta-feira.
Além do segundo turno presidencial, mais de 9 milhões de equatorianos estavam inscritos também para a votação de uma consulta popular não vinculante (sem a obrigatoriedade da aplicação dos resultados) sobre temas de saúde, educação e assistência social. No primeiro turno de 15 de outubro, Noboa obteve 26,8% dos votos e Correa, 22,8%.
Imediatamente após o anúncio das pesquisas, um buzinaço tomou conta do centro de Quito. Dezenas de carros e bandeiras verde-limão de partidários da AP tomaram conta da Avenida Amazonas, dirigindo-se à Avenida de Los Shyris, na periferia da capital, onde a festa da vitória, com bandas folclóricas, foi preparada desde a tarde. Correa concedeu entrevista coletiva num hotel duas horas depois do fechamento das urnas, na qual agradeceu ao povo equatoriano pela vitória e afirmou que cumprirá todas suas promessas de campanha, incluindo a de promover a reforma política e a de renegociar a dívida externa.
Se confirmado o resultado, Correa assumirá a presidência de um país no qual os três presidentes eleitos nos últimos dez anos não conseguiram chegar ao fim do mandato. Seu partido boicotou a eleição legislativa de outubro e Correa terá de enfrentar um Congresso no qual não tem um único deputado. Promete convocar um referendo popular para instaurar uma Assembléia Constituinte que reduza os amplos poderes do Legislativo e do Judiciário equatorianos - uma ação que deve aprofundar as divergências entre ele e o Congresso eleito em outubro.
Ele também antecipou que o economista Ricardo Patilno será seu ministro da Economia. Em sua primeira declaração Patilno já afirmou que manterá a dolarização no país, mas antecipou que o Equador não fará mais pagamentos da dívida externa, que qualificou de 'ilegítima'. Correa também já descartou a possibilidade e assinar um tratado de livre comércio com os EUA e anunciou a pretensão do Equador de voltar a fazer parte da Organização dos Países Produtores de Petróleo.
Correa votou no começo da tarde em Quito, após ir à missa. Logo depois, viajou para Guayaquil, onde acompanhou o voto de seus parentes, antes de retornar a Quito.
Noboa votou em Guayaquil. Depois de votar, leu um trecho do Evangelho de Lucas diante das câmaras e comparou-se a Jesus Cristo. 'Quem é mais importante, o que é servido ou o que serve?', discursou o rei das bananas. 'E eu afirmo que, como Cristo serviu, eu também estou aqui para servir aos equatorianos, à classe média e aos pobres do Equador.'
Três fontes diplomáticas sul-americanas, que falaram ao Estado em Quito sob a condição de anonimato, coincidiram em não descartar a possibilidade de uma fraude eleitoral.
Fiscais de Correa denunciaram mesários que estariam proibindo eleitores de usar a própria caneta para marcar seu voto. Segundo Correa, 'a gente de Noboa' havia importado milhares de canetas especiais, cuja tinta desapareceria após meia hora. Elas seriam distribuídas nas seções onde o partido de Correa liderava as pesquisas por larga margem. Assim, votos para Correa seriam contados depois como votos em branco.