Título: Depois de 16 mortes, trégua suspende conflito de mineiros na Bolívia
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Fonte: O Estado de São Paulo, 07/10/2006, Internacional, p. A29
Pelo menos mais quatro mineiros morreram ontem no conflito entre trabalhadores cooperativados e outro grupo vinculado à estatal Comibol em Huanuni, no Departamento de Oruro, na Bolívia, elevando para 16 o número de mortos desde quinta-feira. Outros 61 mineiros ficaram feridos. Com o fracasso dos cinco ministros do governo Evo Morales envolvidos na tentativa de forçar um acordo entre as duas partes, cerca de 700 policiais foram enviados à pequena cidade de 14 mil habitantes, a quase 300 quilômetros de La Paz e a 4.000 metros de altitude. No fim do dia, quando os policiais tomaram posições estratégicas ao redor dos morros que cercam a cidade, os dois lados acertaram uma trégua.
Os choques opõem 4 mil mineiros cooperativados a aproximadamente mil empregados da estatal Corporação Mineira da Bolívia (Comibol). Os dois grupos - ambos majoritariamente simpatizantes do governo de Evo - disputam o controle das jazidas de estanho da região, uma das maiores do mundo.
Os cooperativados eram empregados de uma empresa mineradora que faliu no ano passado. Eles continuaram a explorar as minas associados em cooperativas. Mas a Comibol assumiu o controle das jazidas em maio, na esteira das medidas de nacionalização dos recursos naturais do governo Evo.
A oposição boliviana - que acusa Evo de cultivar ambições totalitárias e tentar colocar a Assembléia Constituinte, instalada em agosto, acima dos Três Poderes da república - atribuiu ao presidente a responsabilidade pelo conflito. Principal líder opositor, o ex-presidente Jorge Tuto Quiroga afirmou que o governo colhe em Huanuni o resultado do discurso de confronto de Evo. 'Quando um governante conclama à agressão, como tem feito o presidente, esse é o resultado', disse.
À noite, Evo anunciou a substituição do ministro da Mineração e do presidente da Comibol. O ministro Walter Villarroel, ligado à Federação Nacional de Cooperativas de Mineração, foi substituído pelo ex-líder sindical Guillermo Dalence. Na Comibol, Hugo Miranda substitui Juan Cabrera na presidência da estatal. Embora tenha atribuído a violência dos mineiros à atitude 'individualista e mesquinha' dos dois lados, Evo denunciou a existência 'de uma conspiração interna e externa contra a democracia e o meu governo'.
Os mineiros se enfrentaram com paus e pedras, disparos de armas de grosso calibre, bananas de dinamite e bombas de fabricação caseira. À tarde, no hospital da cidade, seis cadáveres estavam empilhados no necrotério. 'Todos aqui foram mortos a tiros', esclareceu um médico. A detonação de uma bomba com 50 quilos de explosivos converteu em ruínas um grupo de casas de madeira e pau-a-pique.