Título: Guerra no Iraque deve derrotar os republicanos no Congresso
Autor: Patrícia Campos Mello
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/11/2006, Internacional, p. A18
O ¿presidente de guerra¿ George W. Bush, que chegou a ter mais de 90% de popularidade no auge do combate ao terror, será derrotado pelo Iraque nas urnas, nesta terça-feira. Se as previsões da maioria dos analistas estiverem corretas, o Partido Democrata vai conquistar a maioria na Câmara dos Deputados e tem chances de levar também o Senado nas eleições legislativas - tudo por causa da rejeição dos eleitores americanos à estratégia do republicano Bush para o Iraque. Os republicanos detêm a liderança do Congresso desde 1994. Os democratas já anunciaram que darão prioridade a projetos de lei para elevação do salário mínimo, redução de juros para empréstimos estudantis, corte nos preços dos remédios e reforma na legislação de lobby. Em relação à imigração ilegal, eles devem propor uma fiscalização mais rígida das fronteiras, mas ao mesmo tempo medidas de assimilação dos imigrantes ilegais. Bem diferente da maioria republicana que, contrariando o presidente, limitou sua política de imigração a uma cerca de 1.100 quilômetros na fronteira com o México. As negociações comerciais devem sofrer uma retração, já que os democratas são historicamente mais protecionistas e podem ser mais resistente a acordos bilaterais ou regionais. Além disso, devem bloquear alguns cortes de impostos propostos por Bush, examinar de perto o Lei Patriótica e gastos no Oriente Médio. Mas está bem menos claro o que os democratas pretendem fazer no Iraque se assumirem mesmo o controle do Congresso. O partido ganhou votos como uma opção anti-Bush, mas não apresentou uma proposta clara para o conflito. ¿Não há consenso dentro do partido, alguns querem a retirada total das tropas, outros querem a redução gradual - eles vão ter de chegar a um acordo¿, diz Thomas Schaller, cientista político da Universidade de Maryland.
Em meio à controvérsia, crescem os pedidos para que o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, renuncie. Um influente grupo privado de revistas militares publica amanhã um editorial no qual o responsabiliza pelas falhas da estratégia no Iraque e por ter ¿perdido a credibilidade entre os militares¿. Robert Kagan, pesquisador do Carnegie Endowment for Peace, duvida que a mudança de comando no Congresso leve a alterações significativas de rumo na política externa dos EUA. ¿Uma exceção notável foi a ocasião em que o Congresso cortou as verbas das operações militares americanas no Vietnã, em 1973. Mas é improvável que os democratas cortem os recursos para o conflito no Iraque nos próximos dois anos.¿
A Câmara exerce seu poder basicamente pela carteira - determinando se destina ou não recursos para determinadas propostas, além de propor leis e decidir quais projetos serão votados. Já o Senado, além de elaborar projetos, confirma nomeações, como a dos juízes da Suprema Corte e secretários.
Mas mesmo se conquistarem a maioria, os democratas vão precisar do apoio dos republicanos. Eles precisam criar um clima positivo para que alguns republicanos votem com eles em certas questões. Alguns analistas acreditam que muitos dos democratas que devem se eleger são conservadora, o que diminuiria a chance de o Congresso aprovar projetos muito à esquerda. E se os democratas levarem a Câmara, mas não o Senado, certamente haverá impasses para aprovar leis. ¿Seja qual for o resultado, os dois partidos terão de promover um diálogo nacional para garantir a governabilidade¿, diz Schaller.
Governar com a Câmara ou todo o Congresso na oposição será mais difícil. Apesar disso, observadores não acham que Bush se transformará em um ¿pato manco¿ (autoridade em fim de mandato com pouco poder) após a eleição. ¿Clinton e Reagan estiveram na mesma situação nos dois últimos anos de seus mandatos e foram muito bem¿, diz Chuck Todd, analista político do The Hotline.