Título: Emprego cresce mais no interior
Autor: Marcelo Rehder
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/11/2006, Economia, p. B5

A criação de postos de trabalho com carteira assinada cresce mais nas pequenas cidades brasileiras do que nas médias e grandes. De acordo com a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério do Trabalho, o emprego formal nos municípios com até 50 mil habitantes cresceu 50,1% nos últimos seis anos - mais que o dobro da taxa registrada nas grandes metrópoles (acima de 400 mil habitantes), de 21,5%. Nas cidades com mais de 50 mil e até 400 mil moradores, o aumento foi de 43,2%.

Considerada um censo do mercado de trabalho formal, pelo fato de ser feita a partir de declarações detalhadas entregues anualmente pelas empresas, a Rais contabilizou 33,2 milhões de empregos com carteira assinada em todo o País no ano passado, ante 24,9 milhões em 1999. A diferença, de 8,3 milhões, representa crescimento de 33,3% entre os dois períodos.

¿A ampliação acelerada do emprego formal nas pequenas cidades está associada à despesa pública¿, diz o economista Márcio Pochmann, pesquisador do Centro de Estudos de Economia Sindical e do Trabalho (Cesit), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), autor do estudo sobre a evolução do mercado formal nas cidades brasileiras.

Para o economista, boa parte dos empregos foi aberta nas pequenas cidades graças aos efeitos da descentralização dos gastos na educação e na saúde e dos programas de transferência de renda, como os da Previdência Social e, mais recentemente, o Bolsa Família.

Entre 1999 e 2005, o chamado gasto social teve aumento real de 8%: passou de R$ 257,3 bilhões para R$ 280 bilhões, em valores atualizados pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). ¿Isso significa uma injeção de renda nos municípios, que evidentemente é direcionada para o consumo, movimentando a economia local¿, diz Pochmann.

Não é por obra do acaso que o varejo têm crescido muito mais no Norte e Nordeste do que em qualquer outra região do País. Segundo levantamento feito pela consultoria MB Associados com base em dados do IBGE, as vendas acumuladas em 12 meses até agosto cresceram 16,8% no Norte e 14,3%, no Nordeste. No Sudeste, a taxa foi de 7,04%, enquanto no Centro-Oeste não passou de 4,54% e no Sul ficou em apenas 0,07%.

A expansão do emprego com carteira assinada também reflete, em boa medida, a fiscalização mais intensa sobre as empresas informais, observa o deputado federal pelo PSDB de São Paulo Walter Barelli, ex-diretor-técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), do qual foi um dos fundadores. Além disso, cita que muitas empresas vêm regularizando a situação dos funcionários para se enquadrar no Simples, regime tributário simplificado que desonera pequenas e microempresas.

Márcio Pochmann lembra que o emprego formal só começou a reagir em 1999, quando houve a mudança no regime cambial do País, que passou de fixo para flutuante. A mudança resultou em aumento da exportação e contenção da importação, o que desencadeou o processo de abertura de postos de trabalho com carteira assinada. ¿Nos últimos anos, intensificou-se a tendência de desconcentração industrial dos grandes centros, o que levou mais empregos para o interior¿.

Opção estratégica Um exemplo claro da fuga de empresas das grandes metrópoles é o da fabricante de café Sara Lee, dona de marcas líderes como Pilão, Café do Ponto e Seleto. Com sede e fábrica em Barueri, na Região Metropolitana de São Paulo, a empresa acaba de inaugurar uma unidade em Jundiaí, no interior paulista, que exigiu R$ 90 milhões em investimentos. A nova fábrica emprega inicialmente 230 pessoas, além de abrir espaço para a criação de mais 600 empregos indiretos na região.

¿A escolha de Jundiaí é estratégica¿, conta o presidente da Sara Lee no Brasil, Dantes Hurtado Júnior. ¿A malha de acesso à cidade permite o recebimento de matérias-primas e o escoamento da produção para qualquer localidade brasileira.¿ Pelo município passam algumas das melhores e principais estradas do País e há garantia de fornecimento de água e gás, insumos fundamentais para café torrado e moído.

A Nestlé foi mais radical. Recentemente, fechou a fábrica do Bairro do Pari, no centro de São Paulo, e transferiu toda a produção de biscoitos para a unidade de Marília, interior do Estado. A mudança foi decidida em nome de um melhor aproveitamento do parque fabril, segundo a empresa.

Além de estar instalada em um local que inviabilizava futuras ampliações, a antiga fábrica enfrentava ainda problemas de logística e de infra-estrutura urbana, como as ruas estreitas e a grande circulação de caminhões nas suas proximidades. A distância dos centros de distribuição, localizados em Cordeirópolis , interior do Estado, e São Bernardo do Campo, no ABC paulista, também pesou na decisão de transferir a produção de biscoitos para o interior. A Nestlé mantinha 571 empregos na fábrica do Pari. Em Marília, o quadro foi reduzido para cerca de 130 funcionários.

¿As fábricas construídas no interior são mais modernas e em alguma medida substituem mão-de-obra, mas elas acabam sendo catalisadoras de emprego, em razão da demanda que geram por serviços¿, diz Carlos Cavalcanti, economista-chefe do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp).