Título: Para oposição, oferta de Lula sobre entendimento não é para valer
Autor: João Domingos
Fonte: O Estado de São Paulo, 03/11/2006, Nacional, p. A4

Partidos de oposição desconfiam do convite do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o diálogo em torno de uma agenda de interesse geral. Acham que a defesa do entendimento feita pelo presidente reeleito pode fazer parte de uma estratégia para diminuir a tensão política que restou da eleição, ou seja, a assinatura de uma trégua. Por isso, os dirigentes oposicionistas querem primeiro ver as propostas de Lula.

'Não queremos convescote com o governo. A conversa tem que ser política. Ele que diga que reformas julga essenciais. A gente vai negociar os termos delas, verificar o interesse dos governadores. E o governo terá de provar que está, de fato, interessado numa proposta boa para o País, não só para ele ou para seu partido', disse o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM). O diálogo, avisou, precisa ser sincero e Lula tem de provar que está disposto a exercê-lo.

'O presidente precisa provar que respeita o Congresso, a oposição, as liberdades no País', prosseguiu Virgílio. 'Ele já começou fazendo três coisas graves depois da eleição. Seu partido agrediu jornalistas na porta do Palácio da Alvorada, a Polícia Federal está fazendo coação aos jornalistas da Veja e o PT está tentando livrar a quadrilha dos sanguessugas.'

No último exemplo, Virgílio referia-se ao fato de o presidente da CPI dos Sanguessugas, o petista Antonio Carlos Biscaia (RJ), ter decidido ouvir três acusados de envolvimento no dossiê Vedoin - Jorge Lorenzetti, Valdebran Padilha e Gedimar Passos - mesmo sem quórum. A oposição decidiu não participar da audiência, porque tinha sido impedida por Biscaia de examinar os dados telefônicos e bancários dos três.

'Esse tipo de atitude não ajuda', afirmou Virgílio. 'Se o presidente quer fotos, estou fora; se quer o País crescendo, estou dentro. Se quer ganhar tempo, estou fora; se quer melhorar a situação, estou dentro. Se vier com atitudes chavistas, estou definitivamente fora.'

RADICAL

O líder da minoria na Câmara, José Carlos Aleluia (PFL-BA), tem uma posição mais radical. Para ele, Lula não precisa pregar o diálogo com a oposição, porque o País não está em crise política. 'O grande problema do governo é no campo jurídico', disse. 'Não espere de nós nenhuma trégua, porque não a daremos. Não espere concertação, porque não a queremos. Nós representamos os 40 milhões que consideram o governo Lula o governo da farsa.'

À frente da minoria - formada pelos partidos de oposição, como PFL, PSDB, PDT, PV e PPS -, Aleluia diz que aceita diálogo, mas impõe condições e foro. 'O governo tem seus representantes no Congresso. É lá que as conversas devem ocorrer. Nós não iremos ao palácio. Não adianta nos chamar.'

'Que faça uma pauta viável, boa para o País. Não venha com proposta de Constituinte, porque para ela não damos apoio. É golpe', frisou o pefelista. Lula tem acenado com a idéia de convocar uma miniconstituinte para votar a reforma política.

Para Aleluia, todas as propostas de diálogo feitas até agora não pareceram sinceras. 'Não confiamos no presidente, no seu projeto de governo.'

Outro líder da oposição, o presidente do PPS, deputado Roberto Freire (PE), é menos arredio ao diálogo, mas também vê motivos para desconfiar. 'Como o Lula muito facilmente diz hoje uma coisa e amanhã outra, totalmente inversa, a gente tem de esperar um pouco para ver se a sua iniciativa do diálogo é verdadeira.'