Título: Governo reage a críticas da CNBB
Autor: Lisandra Paraguassú
Fonte: O Estado de São Paulo, 19/11/2006, Nacional, p. A16
O Ministério do Desenvolvimento Social, responsável pelo Bolsa-Família, rebateu duramente as críticas da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) ao programa e abriu uma crise com a Igreja Católica. Em nota, o ministério classificou de ¿profundo desconhecimento¿ e ¿preconceito contra as famílias mais pobres¿ as afirmações do bispo dom Aldo Pagotto, presidente da Comissão para Serviço de Caridade, Justiça e Paz da CNBB. O texto afirma que a opinião do bispo ¿não reflete a visão da própria CNBB¿, que costuma ser parceira do governo em muitas ações sociais.
Em entrevista dada anteontem, d. Aldo afirmou que o Bolsa-Família é um programa que vicia as famílias e faz com que ¿se contentem com o mínimo¿. O bispo não estava sozinho nas críticas. Apesar de ser menos contundente, d. Geraldo Majella, presidente da CNBB, também criticou o governo Lula.
¿A afirmação de d. Pagotto revela preconceito contra as populações pobres, às quais se destinam o Bolsa-Família, que é um direito, garantido em lei a essas pessoas¿, diz a nota. ¿É importante não perder de vista que as pessoas, uma vez atendidas em suas necessidades básicas, passam a ter condições de buscar uma vida melhor.¿ A longa nota defende todos os pontos do programa e acusa o bispo de não conhecê-lo.
Uma das críticas de d. Aldo é recorrente não apenas na Igreja, mas em vários setores que têm desconfianças sobre o programa: a de que as contrapartidas exigidas pela lei, na prática, não são cumpridas. Com isso, o principal benefício, o de fazer as crianças estudar e receber acompanhamento completo de saúde, não tem resultado.
MOVIMENTOS SOCIAIS
Escalado para manter o diálogo com os movimentos sociais, o ministro da Secretaria Geral da Presidência, Luiz Dulci, terminou ontem por ter de defender o governo de uma saraivada de críticas feitas por esses mesmos movimentos que apoiaram a reeleição de Lula. Durante encontro com representantes da igreja católica e de movimentos sociais organizado pela CNBB, Dulci ouviu que o diálogo com o governo é limitado, que os conselhos que deveriam ouvir a sociedade não funcionam e que o projeto de nação que os movimentos apoiaram nunca foi feito.
A resposta não foi menos dura. Ao responder uma pergunta do líder do MST João Pedro Stédile - que acusou o governo de ser ¿arrogante¿ ao manter uma política econômica que ¿não fez nada pelo País¿ -, o ministro se irritou. ¿Falta criar muito emprego, mas não dá para dizer que não aconteceu nada. Se essas coisas não fossem importantes para o povo, Lula não teria sido eleito¿, disse. ¿Às vezes olhamos o que falta, mas não analisamos adequadamente o que foi feito.¿
Dulci afirmou aos jornalistas que não havia visto as críticas feitas pelo bispo d. Aldo ao Bolsa-Família. Mas foi direto a esse ponto quando falou das realizações do governo. ¿Às vezes chamam de assistencialista algo que o povo considera conquista de direitos¿, explicou. ¿Muitas vezes as motivações podem ser de esquerda, mas as críticas acabam se encontrando com motivações conservadoras.¿
Antes de Dulci começar a falar, o organizador do encontro, o bispo de Jales (SP) Demétrio Valentini, disse que a posição de d. Aldo era ¿estritamente pessoal¿. ¿Para nós, o Bolsa-Família foi uma conquista excepcional¿, garantiu ao Estado.