Título: Unir igrejas é prioridade, diz papa
Autor: Lourival Sant¿Anna
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/12/2006, Internacional, p. A30

O papa Bento XVI colocou ontem a união das correntes cristãs no topo de sua agenda, durante missa na Catedral do Espírito Santo, principal igreja católica da Turquia. Último compromisso do papa na visita de quatro dias ao país, a missa foi acompanhada pelos patriarcas ortodoxos grego e armênio, e por pastores protestantes, além de cerca de mil fiéis, que encheram a pequena igreja e o pátio fechado a sua frente, na nunciatura do Vaticano em Istambul.

Bento XVI lembrou que, há 27 anos, na mesma catedral, João Paulo II fez um voto de que ¿a aurora do novo milênio pudesse `erguer-se sobre uma igreja que encontrou sua plena unidade¿¿. Esse voto ¿ainda não foi realizado, mas o desejo do papa é sempre o mesmo, colocando a perspectiva ecumênica no primeiro lugar de nossas preocupações eclesiais¿. Quando era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o então cardeal Joseph Ratzinger não se mostrava muito inclinado ao ecumenismo.

Bento XVI disse que a presença de Bartolomeu I, patriarca ortodoxo grego, e de Mesrob II, o patriarca armênio, ¿honra toda a comunidade católica¿. Ele também falou da relação entre muçulmanos (99,8% da população turca) e cristãos. ¿Irmãos e irmãs, suas comunidades conhecem o humilde caminho com aqueles que não compartilham nossa fé, mas que declaram `ter a fé de Abraão¿ e adoram, como nós, o `Deus único e misericordioso¿. Vocês sabem que a Igreja não quer impor nada, ela só pede para viver livremente para revelar Aquele que ela não pode esconder, o Cristo Jesus.¿

A imprensa turca interpretou uma declaração firmada quinta-feira por Bento XVI e Bartolomeu I como um recuo do papa em seu suposto apoio à candidatura do país à União Européia (UE). Depois de defender a liberdade religiosa na UE, a declaração diz: ¿Na Europa, os cristãos ortodoxos e os católicos romanos, ao mesmo tempo em que continuam abertos a outras religiões e a sua contribuição à cultura, devem unir esforços para salvaguardar as raízes, tradições e valores cristãos.¿

Para a imprensa, tanto a defesa da liberdade religiosa (colocada em dúvida na Turquia por causa do forte secularismo de seu Estado) quanto a associação entre a identidade européia e o cristianismo indicam restrições à entrada na UE. Depois de se ter colocado contra a entrada da Turquia, em 2004, quando era prefeito da Congregação, o papa teria dito terça-feira ao primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan que ¿queria vê-los na UE¿, segundo o líder turco.