Título: Traficante com fuzil faz Heloísa encurtar visita
Autor: Werneck, Felipe
Fonte: O Estado de São Paulo, 28/09/2006, Nacional, p. A6
Criminosos armados com fuzis mantiveram sua rotina diária no complexo de favelas da Maré, na zona norte do Rio, indiferentes à presença da candidata à Presidência Heloísa Helena (PSOL), ontem de manhã. Durante a visita, que foi encurtada, a senadora deparou-se com traficantes em pelo menos três ocasiões e passou a 2 metros de um deles, que carregava um fuzil.
Ela afirmou que não teve medo e responsabilizou o presidente Lula pelo problema. 'Eu vi (os traficantes). É por isso que a gente tem que discutir isso no debate', declarou, ao sair do Conjunto Esperança, em direção à vizinha Vila dos Pinheiros. 'Quem tem que explicar isso é o presidente Lula, que foi incapaz de tirar as crianças e os jovens das mãos do narcotráfico. Em todo canto tem isso, na periferia de vários Estados.'
Os criminosos faziam a guarda de pontos considerados estratégicos. Na Rua 4 do Conjunto Esperança, onde fica a associação de moradores, três jovens vestidos de preto, um deles com um fuzil, outro com uma mochila supostamente carregada de munição, ignoraram a movimentação dos militantes, a cerca de 100 metros. Pouco depois, a candidata passou a 2 metros de outro grupo armado. Em outro ponto, criminosos ocupavam uma escola.
'Isso não é nada demais, não, é natural. Não tem nada a ver com ela (a candidata). Está tudo bem, não vai dar problema, todo mundo foi avisado, falei com todas as associações. A visita foi um pedido da comunidade, aqui ela é primeira colocada', disse Nereu Lopes, conselheiro distrital de saúde da prefeitura, que atuava como guia da carreata. O roteiro anunciado por ele na entrada não foi cumprido integralmente - estava prevista a visita a 8 das 16 favelas do complexo, mas a carreata percorreu apenas trechos de 4.
RÁDIO
Ainda na Avenida Brasil, antes de entrar na favela, um representante da campanha pediu, com um megafone, que as pessoas desligassem os rádios - que possibilitam acesso à freqüência usada por traficantes - e não utilizassem os aparelhos dentro do complexo. 'Senão podemos ser interpretados de outra maneira.' No meio da carreata, um morador numa bicicleta abordou o fotógrafo do Estado, afirmando tê-lo visto fotografando criminosos: 'Ô cumpadi, tu fez os caras', disse ele.
Equipes de reportagem do Estado e de outros jornais deixaram a favela antes do fim da carreata. 'Eu quase esbarrei em um fuzil, pensei que era um cabo de vassoura, mas era um fuzilzaço', comentou o repórter Marco Alvarenga, do SBT.
Com cerca de 130 mil habitantes, o Complexo da Maré é controlado por três facções criminosas rivais. 'Aqui dentro é pesado. Eles gostam de se exibir e geralmente não mexem com político, mas vai entender cabeça de bandido', disse um policial do Batalhão Rodoviário.
Na favela, Heloísa visitou uma confecção caseira e costurou um detalhe em uma blusa. A candidata disse que o tráfico empregando jovens existe no Brasil todo, admitiu que ficou emocionada 'como qualquer mãe' quando viu jovens armados, mas afirmou que já passou por situação pior enfrentando poderosos do 'crime organizado dos palácios'. 'O que a gente tem que se perguntar é como se sentem as mães que estão na periferia do Rio, de Alagoas, de São Paulo, disputando com o narcotráfico e com a prostituição o futuro das suas meninas e de seus meninos, segurando os seus filhos para não serem arrastados.'
À noite, após o comício de encerramento de campanha, no centro do Rio, Heloísa negou que o trajeto da carreata tenha sido alterado por causa dos traficantes. No discurso para 300 pessoas, num carro de som, no Buraco do Lume, palco tradicional de atos da esquerda, ela fez os habituais ataques a Lula e Geraldo Alckmin, chamados de 'majestade barbuda' e de 'chuchu'.