Título: Divisão é uma pedra em nosso pé
Autor: Rodrigues, Alexandre
Fonte: O Estado de São Paulo, 13/11/2006, Nacional, p. A6
O governador do Espírito Santo, Paulo Hartung, acredita que o PMDB caminha para um consenso interno que o levará unido ao segundo mandato do presidente Lula. Pelo menos se isso depender do esforço dele. Ele se apresenta para ajudar na aproximação de seu partido com o petista, mesmo sem ter recebido ainda convite para visitar o Planalto como governador reeleito.
Passado o segundo turno, o governador desceu do muro sobre o qual esteve durante toda a campanha nacional, mesmo depois de vencer no primeiro turno com a maior votação proporcional do País: 77,27%. Em entrevista ao Estado, Hartung se considera integrante do grupo de governadores aliados do presidente Lula. ¿A briga nacional não é racional. Ela não tem a marca das grandes diferenças programáticas¿, diz. Aos 49 anos, o economista aponta a reforma da Previdência como a maior prioridade do governo federal, antes mesmo da reforma política.
Passadas as eleições, o senhor já pode se posicionar entre os governadores aliados do presidente? Sim. Minha neutralidade aqui está muito ligada à construção da aliança que fizemos no Estado. Sinceramente, nem o PT nem o PSDB do Espírito Santo esperavam o segundo turno. Isso foi pactuado com os companheiros que me apóiam dos dois partidos. Era vantajoso para todos, foi um arco bem construído. Fui aliado do presidente neste primeiro mandato que termina. Tudo o que esteve ao meu alcance fiz para ajudar. Também tive a parceria do presidente e dos ministros Márcio Thomaz Bastos (Justiça) e Dilma Rousseff (Casa Civil), entre outros, em todos os momentos delicados por que passei. Continuo sendo parceiro. Fizemos aliança que foi costurada por todos os partidos e ela previa a minha neutralidade. Nada fiz do que cumprir o acordo montado no Estado.
Sua neutralidade na eleição o afastou do presidente? O senhor espera que ele o convide? Quem sabe disso é ele, não é? A agenda é do presidente. Eu sempre estive à disposição dele, sou muito grato ao presidente por tudo o que ele fez pelo nosso Estado nesse período. Agora, evidentemente, a iniciativa é dele.
O senhor acha que o PMDB poderá finalmente participar coeso do governo do presidente Lula? Acho que sim. Duas coisas mudaram desde o início do governo Lula. O presidente aprendeu muito, é mais experiente, enfrentou várias crises. Todos nós que temos humildade e abertura, e isso o presidente tem, aprendemos muito no exercício de uma função pública. Ele tem dado sinais inequívocos de que vai procurar compor o seu governo de uma maneira diferente no segundo mandato. Os sinais são significativos e ele está fazendo questão de transmitir. O PMDB mudou também. Sai fortalecido da eleição e já sofreu muito com a divisão. Desde o período do ex-presidente Itamar Franco, a divisão é uma pedra no pé do partido, que tem tudo para ter um projeto nacional. Pelo que estou ouvindo, pelos telefonemas que recebo, já estamos no caminho da convergência. No que depender de mim, no pouco que posso fazer, o PMDB vai estar unido e trabalhando pela retomada da agenda de reformas estruturantes de que precisamos.
Que reformas o senhor acha que é a hora de fazer agora? A primeira é a que foi menos discutida na campanha, a da Previdência. Os marqueteiros orientaram os candidatos a não tocar nisso, achando que quem tocasse perderia votos. Mas tanto o presidente Lula quanto Geraldo Alckmin, tanto o PT quanto o PSDB, todos sabem que o País não tem como suportar um déficit dessa magnitude. É esse buraco que está sugando o dinheiro do investimento nos portos, nos hospitais, nas escolas, nas estradas, nas universidades e assim por diante. Acho que o presidente Lula saiu com capital político para liderar isso. Cabe a nós maturidade. Não dá para jogar para a platéia um tema desse, que está ligado ao nosso presente e à possibilidade de termos futuro.
Como os governadores poderão influenciar? Essa reforma é essencial e temos que ajudar o presidente a colocar esse tema de volta na agenda nacional, até porque ele pode ficar constrangido de fazê-lo. Se a gente mexe no gasto, aí sim há espaço para discutir uma reforma tributária que diminua a carga de impostos para aumentar a competitividade da estrutura produtiva e, conseqüentemente, ampliar o emprego. A segunda coisa é distribuir melhor os impostos entre quem paga. O terceiro objetivo é definir as atribuições, o que União, Estados e municípios fazem e como financiam o que é feito. Isso ficou muito desorganizado.
Então o senhor acha que essas reformas devem vir antes da reforma política, mesmo após os escândalos de corrupção? Eu acho que a questão do controle do gasto é muito importante quando o presidente assume o compromisso de fazer o País crescer. Do contrário, vamos fazer o Brasil crescer um ano, um ano e pouco. Acho que não interessa ao presidente nem aos brasileiros uma bolha de crescimento. A questão do gasto é emergencial para que a gente possa zarpar num crescimento continuado e sustentado. Eu iria nessa direção, apesar de achar que a reforma política tem o seu papel. É preciso modernizar partidos e a estrutura eleitoral do País. Há muitos pontos que parecem consenso, mas podem atrasar o andamento no Congresso. Acho que é preciso retomar a reforma do Estado brasileiro. O Estado compra mal, contrata mal, a legislação que rege o funcionamento estatal é pré-histórica. A cada dia temos de fazer mais arranjos criativos para qualificar e expandir o serviço público. Precisamos simplificar, desburocratizar. Não é a burocracia que combate corrupção. É a fiscalização do Ministério Público e da sociedade.