Título: Kerry abre crise entre democratas
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Fonte: O Estado de São Paulo, 02/11/2006, Internacional, p. A20
Depois de várias semanas trabalhando com a forte expectativa de tirar dos republicanos o controle do Congresso nas eleições legislativas de terça-feira - principalmente por causa das más notícias para os republicanos vindas do Iraque -, a campanha democrata passou ontem para a defensiva por causa de uma declaração infeliz do senador e ex-candidato presidencial John Kerry. 'Aproveitem seus estudos, estejam prontos. Se forem preguiçosos intelectualmente, terminarão atolados numa guerra no Iraque', disse Kerry para uma platéia de estudantes da Califórnia, na segunda-feira.
Pressionado pelo partido, Kerry - que não é candidato nas eleições de terça - abandonou a campanha que fazia em favor de candidatos democratas e cancelou a participação em comícios marcados para ontem na Pensilvânia, em Iowa e Minnesota.
O senador disse que tomou a decisão para não se converter em 'fator de distração' do debate eleitoral. Pela manhã, em declarações a um programa de rádio, Kerry se desculpou, lamentando a 'piada malfeita' que, segundo ele, se referia ao presidente George W. Bush e seus assessores e não aos soldados que estão no Iraque. 'Claro que lamento essa piada malfeita. Alguém acredita que eu goste de piadas malfeitas? Realmente, foi algo muito estúpido', disse.
Mais tarde, por meio de um comunicado, o senador se desculpou formalmente: 'Pessoalmente, peço desculpas a qualquer membro das Forças Armadas, aos familiares deles ou a qualquer americano que tenha se sentido ofendidos pelo comentário.'
A declaração de Kerry aos estudantes da Califórnia se propagou rapidamente pela mídia conservadora - do site Drudge Report a programas da emissora Fox News - e terminou no Salão Oval da Casa Branca já na noite de segunda-feira.
Pouco tempo depois, Bush já exigia de Kerry um pedido de desculpas pelo que considerou um insulto aos soldados que estão no Iraque. 'As mulheres e os homens que se alistaram nas Forças Armadas como voluntários são muito inteligentes e o fizeram porque são patriotas', disse o presidente.
Ontem, Bush voltou a fustigar o senador: '(O que ele disse) não soou como piada para mim. Mais importante, não soou como piada para os soldados.' Antes, em declarações a uma rádio de Washington, já havia feito críticas: 'Todo aquele que está na posição de servir ao país deve entender bem as conseqüências de suas palavras. Temos gente maravilhosa em nossas Forças Armadas, que merece todo o apoio e tem toda a aprovação de nosso governo.'
'ESTUPIDEZ'
Personalidades do Partido Democrata se somaram ontem aos membros da administração Bush e demais republicanos para exigir desculpas formais de Kerry. 'Seja qual tenha sido a intenção, o senador Kerry se equivocou ao dizer o que disse', afirmou o deputado democrata Harold Ford, candidato ao Senado pelo Tennessee.
'Os comentários do senador Kerry foram articulados pobremente, foram simplesmente uma estupidez', afirmou o líder do Senado do Estado de Montana, o democrata Jon Tester - que tenta eleger-se senador federal, na terça-feira, contra o senador republicano Conrad Burns. 'Ele deve a nossos soldados e aos parentes deles uma desculpa.'
Herói condecorado da Guerra do Vietnã, aspirante à vaga democrata na corrida presidencial de 2008 e dono de quase 60 milhões de votos populares na eleição presidencial de 2004 (Bush obteve 62 milhões), John Kerry é um influente político do partido democrata e um principais arrecadadores de fundos de campanha.
Nem todos os seus companheiros, no entanto, voltaram-se contra o senador. 'Em vez de ir às emissoras para atacar John Kerry, o presidente deveria sentar-se em seu escritório na Casa Branca e tentar um plano para melhorar os resultados no Iraque', disse o senador Chuck Schumer, democrata por Nova York. 'Essas críticas são uma tentativa de desviar a atenção da fracassada política do governo para o Iraque.'