Título: 'Era importar ou ser expulso do mercado'
Autor: Freire, Gustavo
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/11/2006, Economia, p. B3

Maior exportadora brasileira de isoladores elétricos, a Cerâmica Santa Terezinha, do interior paulista, está deixando de comprar componentes produzidos localmente para trazer similares de fora do País. O objetivo da estratégia é driblar os efeitos negativos do câmbio desfavorável. Até o mês passado, suas compras no mercado externo já acumulavam no ano crescimento de 55% em relação a igual período de 2005.

A empresa importou, este ano, o equivalente a US$ 1,1 milhão em eletroferragens, insumo mais caro usado na fabricação de isoladores elétricos de cerâmica, que chega a representar 30% do custo total de produção. De janeiro a outubro de 2005, as compras externas somaram US$ 619 mil.

'Como temos uma carteira de exportação muito forte, fatalmente seríamos expulsos do mercado internacional se não importássemos componentes', diz Humberto Barbatto, diretor-superintendente da Cerâmica Santa Terezinha.

Segundo ele, a operação funcionou como uma espécie de seguro contra a escalada do real frente ao dólar.

'Já que a empresa gera divisas em dólar, tratamos de comprar insumos pagando também em dólar, para compensar parte do estrago causado pelo real forte.'

A explicação é simples. Como os preços internos têm se mantido estáveis, uma peça de R$ 10 custava para uma empresa exportadora o equivalente a US$ 3,33, quando o câmbio ainda estava em R$ 3. Com o dólar a R$ 2,15, essa mesma peça passa a custar US$ 4,65 para a empresa.

Até 2003, todos os insumos eram comprados no mercado doméstico. Hoje, a importação de eletroferragens já representa 60% das necessidades da empresa.

Os equipamentos produzidos pela Santa Terezinha são usados em linhas de distribuição e transmissão de energia elétrica.

Além de passar a importar insumos, a empresa se viu obrigada a aumentar em até 40% os seus preços em dólar. 'Exportamos para mais de 40 países, o que facilitou o repasse', diz Barbatto. ' Nos mercados mais reticentes, como Estados Unidos e América Latina, tivemos a ajuda de concorrentes que também reajustaram preços.'

A Santa Terezinha fatura cerca de R$ 50 milhões por ano, mas a participação das receitas vindas da exportação tem caído, ano a ano. Em 2004, as vendas externas correspondiam a 43% do faturamento global. No ano passado, esse número já estava em 33% e chegou a 26% este ano.

Até o mês passado, as exportações da empresa correspondiam a R$ 15 milhões, ante R$ 16,5 milhões em igual período de 2005. A diferença, de R$ 1,5 milhão, representa uma queda de 12%.

'Nossa expectativa é de que haja uma mudança na política monetária e cambial que permita voltarmos a exportar mais em 2007.'