Título: Israel abre fogo e mata palestinas que serviriam de escudo ao Hamas
Autor: Kresch, Daniela
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/11/2006, Internacional, p. A16
No dia mais violento nos territórios palestinos desde a captura do soldado israelense Guilad Shalit, em 25 de junho, tropas do Exército de Israel abriram fogo ontem contra um grupo de mulheres palestinas na cidade de Beit Hanun, no norte da Faixa de Gaza. Duas mulheres, ambas de 40 anos, morreram e mais de 10 ficaram feridas no incidente, que foi o mais grave do dia. No total, 19 palestinos morreram ontem em operações militares israelenses na Faixa de Gaza, oito deles civis. Na Cisjordânia, foram dois os palestinos mortos.
O grupo de mulheres, a maioria usando tradicionais véus muçulmanos, se aproximava de uma mesquita de Beit Hanun quando foi alvo de disparos dos soldados. Elas atendiam à convocação de uma rádio controlada pelo grupo radical Hamas para que cercassem o templo e servissem de escudo humano para cerca de 60 militantes refugiados no local por 19 horas.
A princípio, os soldados atiraram para o alto para dispensar a marcha. Mas depois atiraram em direção ao grupo, alegando que havia homens armados entre as mulheres. Houve pânico e correria no momento em que duas delas caíram no chão, baleadas. 'Mundo, onde está você?', exclamou uma palestina. 'Tem gente morrendo! Elas são mártires!' Em meio à confusão que se seguiu, os militantes abrigados dentro da mesquita conseguiram escapar ao cerco do Exército. Imagens de agências de notícias confirmam que alguns estavam vestidos com roupas de mulher.
O cerco à mesquita começou na noite de quinta-feira, quando os militantes do Hamas se refugiaram no local assim que o Exército completou a ocupação de Beit Hanun, um vilarejo de 30 mil habitantes a menos de um quilômetro da fronteira com Israel. Segundo os militares, é de lá que, diariamente, radicais palestinos lançam foguetes caseiros do tipo Qassam contra Israel, atingindo principalmente a cidade de Sderot.
Desde o começo do ano, mais de 300 foguetes caíram em Sderot, alimentando a pressão pública contra o Exército para que contenha os lançamentos. Até agora, os militares não têm tido sucesso. Só ontem, sete foguetes atingiram Sderot. Isso apesar da ocupação de Beit Hanun, desde quarta-feira, como parte da operação 'Nuvens de Outono'. Desde o começo da ofensiva, 35 palestinos e 1 soldado israelense morreram.
Ontem, o dia foi repleto de incidentes na Faixa de Gaza. De manhã, um míssil israelense atingiu um carro na Cidade de Gaza, matando quatro militantes do Hamas. Segundo o Exército, eles iriam lançar foguetes contra Israel. Horas depois do incidente perto da mesquita em Beit Hanun, outra mesquita da cidade foi atingida por um míssil israelense. Um palestino morreu. Os militares alegaram que o prédio abrigava militantes armados e não se parecia com um templo. De noite, ataques aéreos israelenses mataram sete ativistas palestinos em Beit Lahia (ao lado de Beit Hanun) e Rafah, no sul da Faixa de Gaza. Outros ataques mataram mais cinco palestinos.
O primeiro-ministro palestino, Ismail Haniyeh, líder do Hamas, parabenizou as mulheres que participaram da marcha em Beit Hanun. Ele qualificou a ofensiva israelense de 'genocídio' e pediu a intervenção da comunidade internacional, principalmente de países árabes e do secretário-geral da ONU, Kofi Annan. Num comunicado, Annan pediu que Israel atue com moderação máxima em relação aos palestinos, evitando o agravamento da situação e a morte de civis. Ele também pediu que os militantes palestinos parem de lançar foguetes contra alvos civis israelenses. 'Todos os envolvidos devem ter em mente que a continuação da violência fará com que a busca de uma paz justa e duradoura fique ainda mais difícil', afirmou.
Em Jerusalém, o porta-voz da chancelaria israelense, Mark Reguev, disse que a operação Nuvens de Outono é defensiva e acusou o governo palestino de acobertar o lançamento de foguetes contra Israel. Reguev ainda afirmou que a mesquita em Beit Hanun se tornou um alvo legítimo no momento em que ativistas armados do Hamas a ocuparam. O Exército informou que a ofensiva deve durar mais alguns dias.