Título: País pode deixar acordo sobre armas nucleares
Autor: Chiarini, Adriana
Fonte: O Estado de São Paulo, 10/11/2006, Nacional, p. A7
O secretário-geral do Itamaraty, embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, um dos formuladores da política externa brasileira, disse ontem que 'é possível' que o Brasil venha a sair do tratado de não-proliferação de armas nucleares. 'Não é impossível não, tanto que a Coréia do Norte denunciou', disse ele, referindo-se ao fato de que o país asiático deixou o tratado.
A declaração do secretário-geral, no 4º Encontro Nacional de Estudos Estratégicos, foi feita em resposta à pergunta de um militar do Exército - que estava na platéia e se identificou apenas como coronel Caio - sobre a disposição do Brasil de sair do tratado, 'já que Índia, China e outros países vêm fazendo maciços investimentos em armas nucleares'. Os dois países não participam do acordo.
O embaixador acredita que poderá ocorrer uma modificação no tratado para abrigar a Índia, que já é 'uma potência nuclear'. No formato atual, o acordo de não-proliferação não prevê o ingresso de países que desenvolveram armas nucleares e não estavam listados no texto original. Países como os Estados Unidos já dispunham de armas nucleares quando o acordo foi assinado.
O embaixador acredita que o processo de desarmamento previsto no tratado não está funcionando. 'Os países armados continuam altamente armados', argumentou. Ele ressaltou que esses países têm outros programas de 'armas sofisticadas' - ainda que não nucleares - que não estão sendo contidos. Para exemplificar, citou aviões dos Estados Unidos que voam no Iraque sem a necessidade de pilotos, dirigidos por equipamentos que ficam no Texas.
Sem citar nomes, afirmou que existem países que ainda não têm armas nucleares, mas desejam tê-las. 'Com o que houve na Coréia do Norte, alguns países anunciaram intenção até de rever suas Constituições para ter armas nucleares', disse, lembrando o recente teste de explosivo nuclear feito pelos norte-coreanos.
Pinheiro Guimarães, que não concedeu entrevista, lembrou no evento que a Constituição brasileira prevê o uso da energia nuclear apenas para fins pacíficos. Ao ser solicitado a apontar vantagens em participar do tratado, disse que evitar a proliferação de armas nucleares é 'um anseio da população brasileira'. Também registrou que o Brasil tem tecnologia 'muito avançada' em enriquecimento de urânio e é 'o 5º ou 6º país com maiores reservas' do mineral. 'Temos matéria-prima, temos tecnologia e podemos exportar', disse. Acrescentou apenas que o urânio é uma fonte importante de energia, até mesmo pelas restrições que o Brasil enfrenta em outras formas de suprimento energético.
O embaixador afirmou que interessa ao Brasil ser membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Ele falou também de terrorismo, questão cuja fonte identifica no desrespeito aos direitos humanos no Oriente Próximo. Na avaliação dele, o terror é 'a única possibilidade' para uma faixa da população que, se tivesse aviões de combate, os usaria.
O fenômeno de maior relevância no mundo para ele é, porém, a emergência da China. O Brasil pode ser grande fornecedor de alimentos, minérios e até de industrializados para o país, acredita.