Título: CPI fechará trabalhos sem acusar ninguém nem elucidar caso do dossiê
Autor: Lopes, Eugênia
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/12/2006, Nacional, p. A4
Passados seis meses, a CPI dos Sanguessugas deve fechar seus trabalhos com a aprovação de um relatório inconclusivo. O documento final deve ser apresentado pelo relator, senador Amir Lando (PMDB-RO), nesta quarta-feira e não vai citar nenhum dos 71 parlamentares cujos nomes foram enviados para julgamento nos Conselhos de Ética da Câmara e do Senado por suspeita de envolvimento com a máfia dos sanguessugas. O texto também não vai apontar a origem do R$ 1,75 milhão que seria usado por petistas para a compra do dossiê Vedoin, que supostamente conteria denúncias contra tucanos.
¿Não vou fazer menção ao nome de parlamentares¿, confirma Lando. ¿Não temos em momento algum a origem do dinheiro para a compra do dossiê. Se não se descobre a origem do dinheiro, vou dizer o quê? Temos de seguir os passos das investigações da Polícia Federal¿, diz.
¿O relatório final não poderá trazer coisas que não descobrimos. Portanto, não haverá grandes surpresas. O que vai ter é uma conclusão a partir das investigações¿, pondera o sub-relator da CPI, deputado Fernando Gabeira (PV-RJ). O prazo de funcionamento da comissão vai até o dia 19.
No relatório final, Lando deverá apontar a existência da máfia dos sanguessugas desde o segundo governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Mas vai poupar os ex-ministros da Saúde, sem pedir ao Ministério Público o indiciamento de nenhum dos quatro ex-comandantes da pasta desde 1998 até o ano passado. À exceção do governador eleito de São Paulo, José Serra (PSDB), todos os ex-ministros dos últimos oito anos estiveram na CPI para depor e negaram qualquer envolvimento com o esquema de superfaturamento de ambulâncias.
Nas conversas de bastidor, o senador tem dito que há indícios de envolvimento com a máfia dos sanguessugas dos ex-ministros Barjas Negri (PSDB) e Humberto Costa (PT). A ligação do ex-ministro tucano seria por meio do empresário Abel Pereira . Já Costa teria se envolvido com o esquema por intermédio de José Airton Cirillo, que foi eleito deputado pelo PT do Ceará. Lando já avisou, no entanto, que não pretende pedir o indiciamento de nenhum deles. Quer evitar, dessa forma, uma guerra no Congresso entre governistas e oposicionistas.
O relator também está com dificuldades de pedir ao Ministério Público o indiciamento dos ¿aloprados¿ - como foram denominados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva os integrantes de sua campanha à reeleição que articularam a compra do dossiê antitucano da família Vedoin. ¿Qual o crime que eles cometeram? Qual a tipificação que faço?¿, indagou Lando, ao observar que nem mesmo a Polícia Federal conseguiu até agora definir os crimes da maioria dos ¿aloprados¿.
Até agora, a PF pediu o indiciamento apenas de Gedimar Passos, que foi preso com Valdebran Padilha no dia15 de setembro, num hotel de São Paulo, com R$ 1,75 milhão.
Em agosto, a CPI aprovou um relatório com os nomes de 69 deputados e 3 senadores acusados de integrar o esquema de apresentação de emendas ao Orçamento da União para a compra superfaturada de ambulâncias para municípios. O relatório era preliminar e havia a expectativa de que no fim das investigações fosse ampliado, com a inclusão de outros parlamentares. ¿Não quero mais mexer com isso¿, disse o relator. ¿Os nomes dos parlamentares já estão naquele relatório aprovado lá atrás.¿
Dois dos deputados acusados renunciaram. Dos 67 restantes, apenas 5 conseguiram se reeleger. Os três senadores - Ney Suassuna (PMDB-PB), Magno Malta (PL-ES) e Serys Slhessarenko (PT-MT) - foram absolvidos pelo Conselho de Ética. E a maioria dos deputados sanguessugas não deverá sequer ser julgada.
O relatório preliminar foi duramente criticado pelo presidente do Conselho de Ética da Câmara, deputado Ricardo Izar (PTB-SP). Para ele, o relatório não apresentou provas contra os parlamentares. Na semana passada, o Conselho de Ética da Câmara absolveu a deputada Celcita Pinheiro(PFL-MT) e a tendência é seguir os passos do Senado e inocentar os deputados que forem julgados.
A mais abrangente das CPIs - em número de parlamentares investigados - vai acabar em quase nada.