Título: Pinochet disse que nunca ordenou tortura e execução
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Fonte: O Estado de São Paulo, 18/12/2006, Internacional, p. A13

Em entrevista inédita concedida há sete anos, o ex-ditador chileno Augusto Pinochet, morto no dia 10 aos 91 anos, assegurou que nunca ordenou os assassinatos, torturas e violações dos direitos humanos cometidos pelos militares e agentes de seu regime (1973-1990). ¿Jamais dei uma ordem dessas. Ordenei que nenhum preso fosse maltratado¿, afirmou Pinochet na entrevista de 1999, gravada em Londres e publicada ontem pelo jornal La Tercera. ¿Se me desobedeceram, que culpa tenho?¿, prosseguiu Pinochet, ao atribuir a seus subalternos a responsabilidade pela morte e pelo desaparecimento de mais de 3 mil pessoas durante sua ditadura. ¿Quando ficava sabendo de algum ato sumário, mandava o responsável para a Justiça. Mas eu também não podia mandar fuzilá-los.¿

A entrevista foi concedida a três ex-colaboradores e à historiadora Patricia Arancibia Clavel, na época em que o juiz espanhol Baltasar Garzón tentou, sem êxito, a extradição do ex-ditador chileno para a Espanha. Patricia é irmã do agente secreto Enrique Arancibia Clavel, condenado à prisão perpétua na Argentina pelo assassinato em Buenos Aires, em 1974, do general chileno Carlos Prats, oponente de Pinochet.

Na conversa, Pinochet disse que colocou o general Manuel Contreras à frente da Dina, a polícia de repressão, ¿porque ele era bravo¿ e reconheceu que teve problemas com o chefe da Força Aérea Gustavo Leigh - que teria hesitado em bombardear o Palácio de La Moneda em 11 de setembro de 1973, durante o golpe que depôs o presidente Salvador Allende.

¿Nomeei Contreras porque precisava de alguém forte, era necessário um homem que fosse bravo, porque os outros eram muito bravos¿, disse. Em seguida, acrescentou que Contreras foi destituído de seu cargo de chefe da Dina ¿porque mentiu para mim¿.

Também ontem, o jornal El Mercúrio divulgou uma entrevista feita em setembro de 1998, um mês antes de o ex-ditador viajar para Londres, onde seria preso.

Ocupando na época uma cadeira vitalícia no Senado, Pinochet, que durante seu regime enfatizou seu desprezo por políticos, parecia confortável entre eles em seu cargo de senador. ¿Acho que há (no Senado) maior maturidade, as coisas são bem estudadas¿, declarou o general. O ex-ditador manifestou até mesmo ¿compreensão¿ em relação aos senadores que o repudiaram e que levantaram cartazes com fotos de desaparecidos no dia em que ele entrou para o Senado.

Pinochet afirmou ainda que dormia tranqüilo, que não tinha preocupações e que sempre foi ¿um democrata¿.