Título: 'Eu não serei portador de nenhuma fatura'
Autor: Rosa, Vera
Fonte: O Estado de São Paulo, 10/12/2006, Nacional, p. A4

A julgar pelos discursos dos dirigentes do PMDB, os cargos no governo são acessórios, e não o principal, embora a prática indique o contrário. O presidente do PMDB, deputado Michel Temer (SP), tem uma explicação na ponta da língua para se desvencilhar das cobranças dos colegas por mais vagas para a bancada da Câmara. 'Eu não serei portador de nenhuma fatura', diz ele, sempre que o assunto vem à tona.

Temer afirma estar empenhado em sepultar a imagem de fisiologismo que marca o PMDB e na difícil engenharia de pacificação do partido. 'Não é o PMDB que tem de cobrar do governo. É o presidente Lula que precisa arbitrar como cada um deve executar os projetos', constata Temer, em mais uma tentativa de jogar água na fogueira da coalizão.

Com retórica calibrada para um candidato à reeleição, o presidente do Senado, Renan Calheiros (AL), vai na mesma linha. 'Reeditar a questão do espaço do PMDB, neste momento, é o mesmo que reacender a crise interna', compara. Temer e o grupo de Renan selaram a paz temporária, que pode até mesmo reconduzir o deputado ao comando do PMDB, em março, embora o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Nelson Jobim também esteja no páreo.

CONTAS

'O PMDB vai muito bem: com 89 deputados, pode ganhar 6 ministérios. Então nós, que elegemos 41, devemos ficar com três', resume o líder do PP na Câmara, Mário Negromonte (BA), aplicando regra de três na Esplanada. 'Não se trata de fisiologismo: é divisão per capita, símbolo do poder.'

A cúpula do PP vai conversar com Lula nesta semana para aderir a sua proposta de governo de coalizão. 'Mas não seremos vaquinha-de-presépio', avisa o ex-prefeito e deputado eleito Paulo Maluf (SP). O PP comanda apenas o Ministério das Cidades, pasta que é almejada tanto pelo PMDB como pelo PT.

'Quero afastar essa idéia de que nós estamos querendo aparelhar, que estamos preocupados com o loteamento do governo. Não é verdade', afirma o presidente interino do PT, Marco Aurélio Garcia.

Na lista dos ministeriáveis para Cidades já foram cotados tanto a ex-prefeita Marta Suplicy (PT) como o deputado Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), pré-candidato à presidência da Câmara. A exemplo do PMDB, o PP também se divide em facções: uma ala defende a permanência no posto de Márcio Fortes, ministro das Cidades, mas a outra quer trocar de ministro.

'Se o presidente me consultar, recomendo a manutenção dele', diz Maluf. Sinal de que Lula pode seguir outro caminho.