Título: Política é continuação da guerra
Autor: Sant'Anna, Lourival
Fonte: O Estado de São Paulo, 10/12/2006, Internacional, p. A28

A bola rola no gramado do Al-Ahad, o time do Hezbollah. O volante brasileiro Leandro Souza, que chegou na véspera a Beirute, começa o seu primeiro treino coletivo fazendo o sinal da cruz. Ninguém repara. Leandro, que trocou o Anápolis pelo Al-Ahad por um salário de US$ 6 mil (US$ 2 mil dos quais pagos pelo empresário libanês Samir Shamkla, da Tríplice Fronteira), não é o único não-xiita no time do Partido de Deus.

Além do atacante André Baracho, outro brasileiro que também chegou na quarta-feira, vindo do time japonês Ventforet Kofu, jogam no Al-Ahad um nigeriano, um armênio, um maronita e um sunita - como o técnico iraquiano Anuar Jassam, ex-treinador da seleção de seu país. 'Nossa intenção não é misturar política com futebol, pois isso tem gerado violência entre as torcidas', diz o deputado Mohamed Haidar, do Hezbollah, que veio prestigiar o treino do Al-Ahad, campeão libanês em 2004 e 2005. 'Investimos nos esportes para manter os jovens longe do crime e das drogas.'

Al-Ahad - 'A Promessa', em árabe - é parte de uma ampla teia de instituições do Hezbollah, que inclui hospitais, escolas, mesquitas, orfanatos e empresas, como a rede de postos de combustíveis Al-Aytam (Os Órfãos). Mas, com sua escalação timidamente ecumênica (a maioria dos jogadores ainda é xiita), Al-Ahad encerra uma outra promessa: a projeção do Hezbollah como liderança nacional, e não apenas xiita.

A cidade de barracas que a organização vem erguendo há uma semana na frente do Grand Serail, o palácio do governo - hoje cenário de mais uma megamanifestação - é a primeira incursão da milícia xiita na esfera de ação, digamos, 'cívica'. Carl von Clausewitz escreveu que 'a guerra é a continuação da política por outros meios'. Num certo sentido, o Hezbollah tenta fazer da política a continuação da guerra.

O estopim para a ruptura com o governo foi a criação de um tribunal internacional para julgar os suspeitos do assassinato do primeiro-ministro Rafic Hariri, em março do ano passado, e de outras 14 pessoas. Os suspeitos são vinculados à Síria, que, junto com o Irã, patrocina o Hezbollah. Depois da saída do Hezbollah do governo e da aprovação do tribunal pelo gabinete, a lista subiu para 16: o ministro da Indústria, o cristão maronita Pierre Gemayel, foi morto numa emboscada, dia 21. A captura de dois soldados israelenses e a guerra que se seguiu, em julho, também coincidiram com o momento em que as investigações do assassinato avançavam para uma conclusão, incriminando agentes de inteligência ligados à Síria.

'O verdadeiro motivo pelo qual saímos do governo é que ele é comandado pelos americanos e franceses', disse na quarta-feira ao Estado o deputado Mohamed Raad, do Hezbollah, líder da oposição no Parlamento. 'Tem gente que quer assinar um acordo com Israel, esquecendo as Fazendas de Cheba (ocupadas no sul) e os prisioneiros libaneses', acusou, listando os contenciosos que justificaram a captura dos soldados.

Em sua cruzada rumo ao poder, o Hezbollah e a Amal atraem políticos não-xiitas, como o general cristão maronita Michel Aun e três ex-primeiros-ministros sunitas. O que é natural: pela Constituição libanesa, o presidente da República é cristão maronita; o primeiro-ministro, sunita; o presidente do Parlamento, xiita. Mas, nas praças e ruas em frente ao palácio, ocupadas por milhares de manifestantes vigiados por tanques e soldados do Exército, é visível a desproporção entre xiitas e cristãos (quase não há sunitas). Para compensá-la, a Amal escalou seus militantes xiitas para ostentar o laranja do movimento de Aun - outrora um feroz líder nacionalista anti-sírio.

'A militância do Hezbollah não é muito sutil', ridiculariza Samir Franjieh, um dos mais importantes líderes cristãos maronitas no governo. 'Na primeira manifestação (dia 1.º), Aun fez um discurso exigindo a renúncia do governo e a multidão respondeu: 'Allah-u-Akbar' (Alá é grande). Ele não estava falando para o público dele.'

NOVO LÍBANO

A mistura de grupos religiosos antes nitidamente separados reflete a redistribuição territorial de comunidades deslocadas pela guerra civil (1975-90), pela ascensão social dos xiitas e pela emigração ou empobrecimento dos cristãos. No passado, os investimentos franceses e americanos eram destinados preferencialmente a parceiros locais cristãos. A partir de 1990, deram lugar aos sauditas, associados aos libaneses sunitas; e ao dinheiro do Irã, que irriga as comunidades xiitas por meio do Hezbollah. A guerra e a reconstrução intensificaram essa transferência de recursos.

TENSÃO

Essas mudanças geram tensões. Um empresário sunita conta que se mudou de Ashrafiyeh, elegante área tradicionalmente sunita de Beirute, para o bairro cristão de Ain Saadi, depois que três famílias xiitas se mudaram para seu prédio, durante a guerra com Israel. 'Cruzávamos com as mulheres de chador (vestimenta islâmica). Não quero que minhas filhas convivam nesse tipo de ambiente', explicou o empresário. 'Trabalhei 20 anos para comprar aquele apartamento. Eles, que são do Hezbollah, pagaram à vista.'

Um empresário cristão maronita falido que se prepara para emigrar para a Austrália resume: 'Meus filhos não vão viver na República Islâmica do Líbano.'

Os xiitas não são mais a classe pobre e marginalizada do Líbano nem toleram decisões à sua revelia e à de seus poderosos aliados na região. É isso o que quer dizer a cidade de barracas no elegante coração de Beirute.