Título: Crise boliviana contamina reunião
Autor: Marin, Denise Chrispim
Fonte: O Estado de São Paulo, 09/12/2006, Internacional, p. A25
Os presidentes da embrionária Comunidade Sul-Americana de Nações (Casa) realizam hoje em Cochabamba, na Bolívia, sua segunda reunião de cúpula. Débil em substância, o encontro vai expor ao mundo os graves dilemas políticos das democracias da região. A reunião deverá transformar-se em um palanque para os líderes da esquerda nacionalista eleitos e reeleitos em 2006 se oporem à ordem internacional.
Mas, inevitavelmente, acabará contaminada pela mais grave crise política enfrentada pelo seu anfitrião, Evo Morales, presidente da Bolívia. Hoje, a oposição a Evo pretende radicalizar e denunciar aos presidentes dos países vizinhos a ¿vocação antidemocrática e beligerante¿ do governo boliviano que, em sua versão, violou a Carta Democrática da Organização dos Estados Americanos (OEA).
No entanto, em vez de apoio, deverão receber censuras da trinca aliada a Evo - os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, Hugo Chávez, da Venezuela, e o recém-eleito Rafael Correa, do Equador, que participa como convidado. A denúncia da oposição será feita por meio de um documento assinado pelos governadores de Santa Cruz, Tarija, Beni e Pando, além de outros líderes.
¿A pretensão (do governo Evo) de instalar bases militares em lugares sensíveis do leste da Bolívia, as ameaças nos discursos do próprio vice-presidente, Álvaro García Linera, de empunhar armas, a incitação para seu uso contra o povo que não compartilha a ideologia do governo e o empenho em ditar uma Constituição totalitária são claros exemplos de uma vocação antidemocrática e beligerante¿, afirma o comunicado.
O ponto-chave do conflito boliviano está na decisão do governo de ordenar que as medidas votadas na Assembléia Constituinte sejam aprovadas por maioria simples. A oposição insiste para que a Assembléia vote as medidas conforme sua regulamentação, que prevê a aprovação por maioria de dois terços (170) dos 255 membros do plenário.
O impasse levou líderes da oposição, entre os quais 15 senadores, a mobilizarem-se em uma greve de fome, que se arrasta há três semanas.
Ontem, diante das violentas invasões de prédios governamentais na região de Santa Cruz de la Sierra por estudantes contrários à intervenção de Evo no processo de decisão da Constituinte, o governo ordenou que todos esses edifícios fossem fechados.
Pela manhã, a Casa Pastoral da Igreja e os escritórios do Ministério de Obras Públicas foram alvos de ataques armados. Segundo o diretor de Trabalho do Departamento de Santa Cruz, Freddy Siles, a decisão do governo teve o objetivo de evitar ¿qualquer tipo de confrontação desnecessária¿, em especial no momento em que Evo recebe líderes de países vizinhos.
Essas medidas, entretanto, não foram suficientes para reduzir a crise política e os atos de violência, em especial em Santa Cruz, região que concentra boa parte da atividade econômica boliviana e de ferrenha oposição ao governo Evo.
Ao desembarcar na tarde de ontem em Cochabamba, Lula teve o cuidado de não interferir na crise boliviana. Mas, discretamente, enviou sua mensagem de apoio a Evo. ¿Todo mundo sabe o que eu penso da vitória de Evo Morales. Todos sabem o significado que essa vitória teve para o mundo e para os amantes da democracia¿, afirmou, ao ser indagado sobre o tema pela imprensa.
¿Agora, todo mundo tem problemas internos. Eu tive problemas internos. O (argentino Nestor) Kirchner teve problemas internos. O (venezuelano Hugo) Chávez teve problemas internos. Ou seja, os problemas internos, nós resolvemos internamente.¿
Sem a presença de líderes como Álvaro Uribe, da Colômbia, e de Kirchner, a reunião de cúpula tende a ser dominada pelos discursos intempestivos de Chávez, reeleito no domingo com 61% dos votos do eleitorado venezuelano, e de dois de seus afilhados - Rafael Correa, eleito no final de novembro, e Evo. Apesar do claro apoio político a Evo, Lula tenderá a assumir uma posição de moderador dos impulsos chavistas de estender sua revolução bolivariana pelo continente, por meio do processo de integração desencadeado pela Comunidade Sul-Americana. A seu lado deverão figurar líderes igualmente mais moderados da esquerda - Michelle Bachelet, do Chile, e Tabaré Vázquez, do Uruguai.
Logo ao chegar a Cochabamba, Chávez dispôs-se a acudir Evo e acusou as elites bolivianas de promover um golpe de Estado contra o presidente. ¿O que acontece na Bolívia se parece muito com o que aconteceu na Venezuela em 2001 e 2002¿, afirmou, referindo-se à crise que culminou no fracassado golpe de 2002 contra ele. ¿Evo Morales é um homem de grande coragem. Tenho fé que os soldados e o povo bolivianos vão evitar uma tragédia maior.¿