Título: Na CPI, Lacerda e Gedimar negam saber do dinheiro
Autor: Lopes, Eugênia
Fonte: O Estado de São Paulo, 29/11/2006, Nacional, p. A8

Em depoimento ontem de três horas à CPI dos Sanguessugas, o policial federal aposentado Gedimar Passos negou-se a dizer quem lhe entregou o R$ 1,75 milhão que seria usado para comprar o dossiê Vedoin. 'Já estou com a corda no pescoço e não posso simplesmente puxar a corda', alegou, recusando-se a responder a uma pergunta do sub-relator da CPI, deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), sobre quem lhe deu o dinheiro.

'Isso mostra que ele não pode falar mais do que já falou porque corre perigo', argumentou Gabeira. Gedimar foi preso junto com o petista Valdebran Padilha, em 15 de setembro, no Hotel Ibis, em São Paulo, com o R$ 1,75 milhão, em reais e dólares.

Laudo da Polícia Federal apontou que um então assessor do senador Aloizio Mercadante (PT-SP), Hamilton Lacerda, que também depôs ontem na CPI, foi quem entregou o dinheiro para Gedimar. Em seu depoimento ontem, Lacerda negou.

Lacerda afirmou que sua participação no escândalo limitou-se a contatos com a revista IstoÉ para intermediar uma entrevista de Darci e Luiz Antônio Vedoin, chefes da máfia dos sanguessugas. 'Não transportei, não manipulei e não levei qualquer numerário ao Hotel Ibis', afirmou Lacerda, ao dizer que as malas que transportou ao hotel continham boletos de campanhas e roupas para Gedimar.

Dois meses depois de ter sido preso, Gedimar denunciou ontem que sofreu tortura psicológica e física na Polícia Federal. Ele alega que foi colocado pela PF em uma cela de castigo, numa prisão em Cuiabá, com água até a canela, quando foi transferido de São Paulo para Mato Grosso, em 19 de setembro.

'Vocês acham normal, para amolecer o meu juízo, eu passar 13 horas em uma cela com água até a canela? Fui jogado em uma cela da meia-noite até 11h30 do dia seguinte. Fiquei com um monte de feridas', afirmou Gedimar, mostrando ferimento na perna esquerda.

'É mentira que ele tenha sido torturado. Por que não denunciou antes?', indagou o sub-relator de Sistematização, Carlos Sampaio (PSDB-SP).

A tortura psicológica, de acordo com Gedimar, foi em São Paulo, logo após ser preso, em 15 de setembro. 'Fiquei depondo de 9 horas da manhã até as 10 horas da noite. Não me deixaram telefonar para o meu advogado nem para a família.'

Gedimar disse que foi contratado pela Executiva Nacional do PT - ganhava R$ 8.880 líquidos por mês -, mas sua família não sabia que ele trabalhava na campanha do presidente Lula.

'MILITANTE'

Lacerda afirmou que não usou um 'celular seguro', em nome de uma mulher, para fazer ligações para Gedimar e outros integrantes da campanha de Lula. Contou que o empresário Abel Pereira, ligado ao ex-ministro tucano da Saúde Barjas Negri, estaria tentando comprar o silêncio da família Vedoin.

Após cerca de duas horas depondo, Lacerda chorou, diante da intervenção do senador reeleito Eduardo Suplicy (PT-SP). Ele fez uma longa explanação sobre a trajetória de Lacerda como militante petista e lembrou episódios de campanha. 'A idéia não era pegar uma denúncia qualquer. Era cavar um espaço para um furo de reportagem. Fiz uma ação como militante, como dirigente partidário', defendeu-se Lacerda.

REAÇÃO

As superintendências da Polícia Federal em Cuiabá e São Paulo negaram ontem as acusações de tortura. A PF informou que a hipótese de tortura psicológica não é 'crível' e garantiu que a instituição tem como provar que Gedimar não sofreu violência física.